Na obra A Verdadeira História de Maria Madalena (Ediouro), de Dan Burstein e Arne J. de Keijzer, o pesquisador e autor Mervin Meyer diz que havia diversidade entre os primeiros cristãos, diferentes maneiras de entender o que as "boas novas de Jesus" realmente acarretavam, e o que significava sequi-lo. Algumas dessas diferenças transformaram-se em polêmicas, nem sempre de natureza afável ou gentil.
Nos primeiros séculos do Cristianismo, as comunidades cristãs tinham diversas origens e eram organizadas de formas diferentes. Havia uma tradição oral diversificada que incluía apresentações diferentes dos evangelhos, dos atos dos apóstolos, assim como das cartas apostólicas e apocalipses. As diferenças seguiam as mais variadas formas de pensar e de viver de cada comunidade cristã.
Entre os primeiros cristãos, havia os ebionitas, que se consideravam judeus e tinham Jesus como o salvador exclusivo do povo judeu. Defendiam a ideia de que Jesus tinha nascido de forma natural e que, depois de batizado, foi adotado por Deus.
Para os docetas, Jesus possuía um corpo etéreo, e eles acreditavam que não havia nascido, morrido na cruz e muito menos resuscitado. Além disso, não o consideravam filho de Maria.
Os ofitas acreditavam que Caim era o representante espiritual mais elevado. Para eles, a morte de Jesus, embora tenha sido um crime, fora um evento necessário para a salvação da humanidade.
Havia também os marcionistas, que cultuavam dois deuses. Um deles era mau, responsável por toda desordem e maldade do planeta. Jesus era considerado o deus bom, nascido com o objetivo de libertar a humanidade do deus do mau.
Os seguidores de Tomé, os tomasinos, formavam uma comunidade à parte. Rejeitavam a hierarquia e também acreditavam na salvação por meio do conhecimento.
Os seguidores de Pedro e Paulo tinham fortes comunidades em Roma, capital do Império Romano. Esse Cristianismo era mais organizado e tinha uma hierarquia própria.
O chamado Cristianismo apostólico se baseava nas narrativas dos primeiros discípulos de Jesus, entendendo que o Messias havia morrido na cruz para salvar a humanidade. Afirmavam que cabia aos seus seguidores a missão de espalhar sua mensagem pelo mundo.
Os gnósticos tinham algumas crenças semelhantes às dos marcionistas, pois acreditavam que o mundo tinha sido criado por um deus imperfeito. Assim, eles acreditavam que não havia motivo para se ter culpa pelos males do planeta. Para eles, havia o Deus bom, que havia dado a cada ser humano uma centelha divina que o capacitava a conhecer a verdade e a abandonar a imperfeição. O acúmulo de conhecimento era o caminho para a libertação do mundo mau. Adotavam uma vida ascética, negavam a matéria e acreditavam que o conhecimento era o caminho para a salvação.
Algumas facções também defendiam que Deus tinha um princípio masculino e outro feminino. Muitas mulheres desses grupos atuavam como mestras, líderes e profetisas - uma ideia ainda hoje revolucionária para a Igreja.
Alguns bispos tentaram organizar as escrituras, aparar as diferenças e chegar a uma versão oficial da crença em Jesus. Porém, as disputas de poder sempre dificultaram essa unificação.
Em 313, o imperador romano Constantino Magno enfrentava problemas com o povo e necessitava de uma nova religião para controlar as massas. Aproveitando-se do grande avanço da "religião do carpinteiro", o Cristianismo, apoderou-se dela e a modificou conforme seus interesses.
Constantino é considerado o primeiro imperador cristão, mas na verdade o seu Cristianismo tinha apenas motivação política. A Igreja passou a ser parte do sistema político que governava.
O Concílio de Niceia, em 325, foi presidido por Constantino e era formado por bispos nomeados por ele e por líderes religiosos de diversas comunidades. O Concílio consagrou a designação "católica" à igreja organizada pelo imperador.
A versão do Cristianismo foi organizada por concílios da Igreja cujos membros provavelmente sofreram pressão de Constantino e de diversas facções políticas em suas atividades. Toda uma estrutura teológica foi montada pata atender às pretenções absolutistas da casta sacerdotal dominante, que dizia aos seus fiéis: "Fora da Igreja não há salvação".
Os diversos Concílios selecionaram conteúdos da Bíblia, determinaram doutrinas e dogmas da Igreja - como por exemplo, a Santíssima Trindade, a divindade de Jesus, a virgindade de de Maria (mãe de Jesus). Foi nesse contexto que os Evangelhos de João, Marcos, Lucas e Mateus foram considerados canônicos (o termo canônico significa aquele que entrou na lista dos escolhidos).
A palavra "evangelho" tem origem grega e significa "boa nova", que no caso seria a notícia da chegada do Messias, Jesus. Os livros que não pertenciam ao cânone(a lista dos escolhidos), foram considerados heréticos e grande parte foi destruída.
No início do Cristianismo, os evangelhos eram 315, o que demonstra as várias interpretações locais sobre Jesus. Os textos proibidos foram os gnósticos, os que não davam importância à crucificação e os evangelhos tomasinos, por pregarem a busca individual pela salvação.
Após a organização da Igreja em Niceia, teve início a perseguição a todos os que discordavam da recém-formulada Escritura Sagrada. Os gnósticos, assim como os docetas, ebionitas e ofitas, foram acusados de heresia. Os que insistiam em desrespeitar o cânone eram punidos com a excomunhão ou a morte.(Compilação da Revista Arquivos Secretos Especial, por Ana Elizabeth C. da Costa)
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