O Evangelho segundo Tomé, do apóstolo que precisava "ver para crer", é o mais polêmico do acervo de Nag Hammadi. Fragmentos de três papiros gregos - encontrados em um lixo em Oxirrinco, atual Behnesa, no Egito -, publicados em 1897, contêm sentenças atribuídas a Jesus quase idênticas às encontradas no Evangelho de Tomé de Nag Hammadi. Esses papiros eram representantes de edições gregas do Evangelho de Tomé.
Por algum tempo, acreditou-se que os escritos descobertos eram de autoria de um maniqueu, de um seguidor do místico gnóstico Mani. Atualmente, é consenso que o texto de Nag Hammedi foi escrito antes do movimento maniqueísta ter surgido.
O texto, em copta, teria sido escrito ou traduzido em Edessa, sob a influência de Tomé, daí o nome Evangelho de Tomé. Ele teria sido composto durante o século 2 e sua redação final teria sido feita no final do século 4.
Tomé, conhecido como Dídimo Tomé, teria parentesco com Jesus. Pregou a sua palavra na Índia e morreu a golpes de espada por quatro soldados, a mando de um rei.
Segundo Luigi Moraldi, em sua obra Evangelhos Apócrifos (Paulus Ed.), Tomé era considerado depositário de secredos e revelações particulares referentes a Jesus. "Os escritos apócrifos atribuídos a ele também têm essa marca; daí o sentido velado e muitas vezes chocante que o distingue".
Moraldi relata que em Atos, Tomé afirma: "Tu (Senhor) desvendas segredos escondidos e revelas palavras misteriosas"; e ainda, "Jesus, mistério escondido que me foi revelado, a mim, a quem revelaste teus mistérios mais que a todos os meus companheiros, a mim disseste palavras que me queimam, e que não posso manifestar".
Ao contrário dos outros evangelhos conhecidos, quer sejam canônicos ou apócrifos, o Evangelho de Tomé não expõe narrativas sobre a vida de Jesus, mas atém-se às sentenças que teriam sido proferidas por ele a seus discípulos.
O Evangelho de Tomé é formado por 114 sentenças independentes proferidas por Jesus. Os ensinamentos de Jesus descritos têm como objetivo levar ao homem o ideal da salvação gnóstica. Contém parábolas sem alegorias e ensinamentos sobre o reino de Deus e o comportamento do ser humano. O conteúdo ainda relata os caminhos para a busca de si e as palavras que não devem ser anunciadas aos profanos. O masculino e o feminino são convocados a viverem de forma integrada.
O Evangelho de Tomé tem uma relação estreita com o de João, considerado gnóstico, assim como com o de Maria Madalena. Esses três evangelhos tinham como princípio a união do masculino e do feminino em cada ser humano.
Na visão gnóstica de Tomé, Jesus era um sábio que caminhava com seus discípulos e que lhes ensinava palavras portadoras de vida. Essas palavras levavam o discípulo a tomar consciência de si mesmo e a caminhar em busca da plena realização de seu ser.
Os evangelhos de Tomé e João propagavam o conhecimento da Palavra, Jesus, o Pai e a verdade, para se libertar da morte. Reconheciam que todo homem tem uma cegueira interna que o impede de conhecer a verdade.
As comunidades de Tomé sabiam que compreender as palavras de Jesus significava interpretá-las de forma correta para tornar-se um seguidor fiel das palavras de vida. Dessa forma, a morte não teria lugar no cotidiano de uma vida mortal. As parábolas de Tomé revelam Jesus mais próximo dos camponeses e dos excluídos do sistema econômico romano, diferente dos evangelhos canônicos.
O estudioso e autor Marvin Meyer considera o Evangelho de Tomé como um evangelho de sabedoria, no qual Jesus emprega a técnica também usada nos evangelhos canônicos, em que não define tudo, mas que se deixam histórias inacabadas ou com uma pergunta no ar. Assim, ele é um evangelho interativo, pois tem como objetivo provocar a reflexão e a interpretação.
Ele encerra seus escritos falando sobre Pedro e Maria Madalena: "Simão Pedro disse: Seja Maria Madalena afastada de nós, porque as mulheres não são dignas da vida. Respondeu Jesus: Eis que eu atrairei, para que ela se torne homem, de modo que também ela venha a ser um espírito vivente, semelhante a vós homens. Porque toda a mulher que se fizer homem entrará no Reino dos Céus".(Tomé 114)
Para o pesquisador Frei Jacir de Freitas Faria, em sua obra As Origens Apócrifas do Cristianismo: "esse texto deve ser entendido em sintonia com outras passagens do Evangelho de Maria Madalena e do tratado gnóstico Pistis Sophia, os quais descrevem a postura misógina de Pedro em relação às mulheres. Essa aversão de Pedro em relação às mulheres é o reflexo da disputa de liderança entre os primeiros cristãos. E nesse campo era normal que as mulheres não levassem a melhor, pois eram consideradas incapazes de aprender ensinamentos profundos. O grande pecado de Maria Madalena foi saber demais".(Compilação da Revista Arquivos Secretos Especial, por Ana Elizabeth Cavalcanti da Costa)
Trechos do Evangelho de Tomé
5.Conhece o que está ante os teus olhos - e o que te é oculto te será revelado; porque nada é oculto que não seja manifestado.
20.Disseram os discípulos a Jesus: Dize-nos, a que se assemelha o Reino dos Céus?
Respondeu-lhes ele: Ele é semelhante a um grão de mostarda, que é menor que todas as sementes; mas, quando cai em terra, que o homem trabalha, produz um broto e se transforma num abrigo para as aves do céu.
22.Jesus viu crianças de peito mamarem. E ele disse a seus discípulos. Essas crianças de peito se parecem com aqueles que entram no Reino. Perguntaram-lhe eles: Se formos pequenos, entraremos no Reino? Respondeu-lhes Jesus: Se reduzirdes dois a um, se fizerdes o interior como o exterior, se fizerdes o de cima como o de baixo, se fizerdes um o masculino e o feminino, de maneira que o masculino não seja mais masculino e o feminino não seja mais feminino - então entrareis no Reino.
47.Disse Jesus: O homem não pode montar em dois cavalos, nem pode retesar dois arcos. O servo não pode servir a dois senhores, pois ele honra um e ofende o outro. Nenhum homem que bebeu vinho velho deseja beber vinho novo. Não se coloca vinho novo em odres velhos, com medo que se rompam; vinho novo se coloca em odres novos, para que não se perca. Não se cose um remendo velho em roupa nova, para não causar rasgão.
57.Jesus disse: O Reino do Pai é semelhante a um homem que semeou boa semente em seu campo. De noite, porém, veio o inimigo e semeou erva má no meio da semente boa. O senhor do campo não permitiu que se arrancasse a erva má, para evitar que, arrancando esta, também fosse arrancada a erva boa. No dia da colheita se manifestará a erva má. Então será ela arrancada e queimada.
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