O Evangelho de Maria Madalena pertence ao Codex Akhmin, também chamado Papyrus Berolinensis 8502. Foi descoberto na cidade de Akhmin, no Egito, em 1896, e adquirido no Cairo pelo pesquisador alemão Carl Reinhardt.
Originalmente, tinha 19 páginas em papiro, escrito em dialeto copta egípcio. O texto estava incompleto; faltam as páginas de 1 a 6, e de 11 a 14. Em 1955, uma tradução foi publicada pela primeira vez.
Entre 1897 e 1906, dois outros fragmentos desse evangelho foram encontrados pelos ingleses Bernard Pyne Granfell e Arthur Surridge Hunt. Escritos em grego, são denominados Papyrus Oxyrhynchus e o Papyrus Ryland 463. A versão desses novos fragmentos, que complementam e confirmam o texto do Codex Akhmin, foi publicada em 1983.
O Evangelho de Madalena é considerado um dos mais importantes evangelhos apócrifos, pois contribuiu muito para a compreensão das origens do Cristianismo. O manuscrito em grego foi escrito por volta do ano 150, e a sua cópia em copta na século 5.
Acredita-se que o Evangelho de Maria Madalena é fruto da comunidade que se formou sob sua liderança e que, de certa forma, foi uma reação contra a institucionalização do Cristianismo na linha masculina e hierárquica. Jesus sempre esteve próximo das mulheres e dos excluídos das sociedades, como os pobres, pecadores e enfermos. Os evangelhos canônicos não retrataram a liderança de mulheres apóstolas e discípulas de Jesus, como Maria Madalena.
Maria Madalena nasceu na cidade de Magdala, na Galileia. Era uma mulher de posses que, após uma experiência religiosa, tornou-se discípula de Jesus, acompanhando-o em suas viagens, junto a outros discípulos, homens e mulheres.
Nos evangelhos apócrifos, Filipe a apresenta como companheira de Cristo. No Evangelho de Tomé, é a consorte do Senhor e sua interlocutora mais importante, e na Pistis Shofia, tratado gnóstico do século 3, a maior parte das perguntas é feita por Maria Madalena.
Nos Evangelhos canônicos e apócrifos, ela sempre é identificada com Jesus. A sua morte não é relatada nos apócrifos, e há quem diga que ela teria fugido de Jerusalém no ano 42, devido à perseguição dos romanos aos cristãos. Daí a tradição que ela teria se tornado eremita.
Ela é a figura feminina mais citada no Novo Testamento e personagem importante na cena da ressurreição de Jesus. Na Bíblia, as imagens frequentemente associadas a Maria Madalena são a da pecadora que unge os pés de Jesus (Lc 36:8), a da mulher que derrama sobre sua cabeça um precioso bálsamo (Mt 26:6-7) e da esposa que está prestes a ser apedrejada por adultério e é salva por Jesus (Jo 8:3-12).
Na época, o termo "pecadora" para os fariseus podia significar tanto uma mulher de costumes depravados quanto uma mulher que não observava os preceitos dos fariseus. No livro hebraico, o Talmude, uma pecadora podia ser uma mulher que dava de comer ao marido com um alimento sobre o qual não havia dado o dízimo.
Em 591, o papa Gregório fez um sermão na Páscoa (homilia 33), no qual ele fundiu Maria Madalena com a pecadora anônima da cidade. De acordo com os estudiosos da atualidade, o papa desferiu um golpe praticamente fatal, numa época em que as mulheres eram cada vez mais marginalizadas, por serem julgadas como uma ameaça à verdadeira fé.
"Aquela a quem Lucas chama de mulher pecadora, a quem João chama de Maria Madalena, nós acreditamos ser a Maria da qual sete demônios foram expulsos, de acordo com Marcos. E o que significam os demônios, senão os vícios?". O papa Gregório, entre diversas colocações negativas sobre Maria Madalena, afirmou que o bálsamo usado pela mulher era o mesmo que usava para perfumar sua carne para atos proibidos.
O padre Richard Mcbrian da Notre Dame University afirma que não existem fatos que provem que Maria Madalena fosse prostituta. Naquela época, as doenças comuns entre a população eram atribuídas a demônios. O estudioso acredita que os "demônios" poderiam ser doenças, e a expressão "expulsar os demônios" pode ser considerado o mesmo que "curar".
Apesar de ter sido rotulada como prostituta pela Igreja ocidental no século 6, existem provas de que Maria Madalena era uma pessoa respeitada pelos primeiros líderes masculinos da Igreja. O bispo de Roma, Hipólito, naascido em 170, afirmava que ela era o apóstolo para os apóstolos.
Por outro lado, por muito tempo a Igreja oriental aclamou a importância de Maria Madalena, dando importância ao papel da mulher em suas comunidades. Diversos teólogos orientais viam-na como uma mulher honrada, digna de destaque em seu papel dentro do Cristianismo. Dentre eles, vale a pena citar Cirilo de Alexandria, e Proclus, patriarca de Constantinopla, por volte de 444.
O Evangelho de Maria Madalena é formado por ensinamentos de Jesus repassados por ela aos apóstolos. A primeira parte descreve o diálogo de Jesus já ressuscitado com seus discípulos. Ele responde sobre questões relacionadas à matéria e ao pecado. Antes de partir, o Mestre aconselha-os a se protegerem de qualquer um que os tente a desviar do caminho, e pede que saiam a pregar o Evangelho. Após a sua partida, os discípulos, repletos de dúvidas e aflitos, são acalmados por Madalena.
A segunda parte do texto narra a descrição de Madalena aos discípulos de uma revelação que lhe fora transmitida por Jesus. A pedido de Pedro, ela narra as coisas que estavam ocultas. Nesse trecho do Evangelho, faltam quatro páginas.
As páginas seguintes descrevem a revelação que teve, em forma de diálogo. Jesus revela que a alma vê por meio da mente, que está entre a alma e o espírito. O texto é interrompido e retorna na página 15. Maria descreve que Jesus lhe ensinou que, durante a ascensão, a alma atravessa quatro poderes. Depois que Madalena termina a descrição dos ensinamentos, André e, em seguida , Pedro, desafiam-na argumentando que os ensinamentos eram estranhos, duvidando que Jesus tivesse feito revelações daquele porte para uma mulher. Madalena se comoveu diante das dúvidas e lhes perguntou se julgavam que ela estava mentindo.
Na ocasião, Levi interrompeu e disse a Pedro que se Jesus a havia feito digna, quem era ele para rejeitá-la. Depois que Levi disse essas palavras, eles imediatamente começaram a sair para anunciar e pregar a palavra do Mestre.
A oposião de alguns apóstolos a Maria, como André e Pedro, é considerada como um reflexo dos confrontos existentes na Igreja do século 2. Significava o sinal de que a Igreja oficial se oporia às revelações esotéricas e à liderança da mulher.
Margareth Starbird, em sua obra Maria Madalena, a Noiva no Exílo (Ed. Cultrix), afirma que "a rivalidade entre o modo de ser de Pedro e Maria Madalena tem sua origem na psicologia do masculino e feminino (...). Pedro, a Pedra, representa a versão ortodoxa do Cristianismo e tem garantida a passagem para o Paraíso pela mediação de sacerdotes hierárquicos, com autoridade absoluta sobre suas vidas e suas almas, a quem eles devem honrar e obedecer. Maria é o caminho do coração - o relacionamento apaixonado com o Divino e com a criação".
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