quarta-feira, 28 de julho de 2010

Nove mentiras sobre o fim do mundo

     As polêmicas afirmações sobre potências, catástrofes marcadas para 2012 reacenderam a eterna discussão: a civilização tem data certa para acabar? Veja o que diz a revista Para saber e conhecer, no texto de Salvador Nogueira.
     O mundo vai acabar. É sério. Vai acabar mesmo. Só não vai ser em 2012. Mas dá para antecipar uma data aproximada: o planeta Terra será destruído lá pelo ano 6.999.997.990, ou, arredondando a conta, daqui a uns 7 bilhões de anos.
     Será mais ou menos por essa época que o Sol se tornará uma estrela gigante vermelha tão inchada que seu diâmetro vai ultrapassar a órbita da Terra. O planeta será engolfado pela atmosfera solar e completamente pulverizado no processo.
     A vida na Terra, entretanto, terá acabado muito antes disso. Em coisa de 1 bilhão de anos, o Sol já estará bem mais quente do que agora, evaporando totalmente os oceanos terrestres e transformando nosso planeta num deserto inabitável.
     Isso não é especulação; são fatos científicos. Mostram que não deveria ser tabu ou coisa de maluco falar sobre o fim do mundo. Agora, se o assunto são aqueles sujeitos que andam por aí com plaquinhas com os dizeres "O fim está próximo", aí o negócio muda de figura.
     E olha que os caras são criativos, hein? Ao longo desta reportagem, você vai descobrir nove lorotas contadas sobre o fim do mundo, desde profecias da Antiguidade até a hipóteses de a Terra se chocar com planetas errantes, passando por alinhamentos galácticos. E poderá ficar tranquilo ao saber que nenhuma dessas proposições faz sentido.
     Disso tudo, entretanto, uma coisa é certa: o ser humano parece ter uma fixação ancestral pelo fim do mundo. Em todo século ou milênio que se encerra, essa história reaparece. Em algumas datas específicas a fantasia é requentada, como agora, para 2012. Parece que a humanidade tem um desejo oculto, inconsciente, de autodestruição. O que, como você verá ao final, pode não estar mesmo muito longe da verdade...

     1.Os maias previram o fim do mundo em 2012?
     A civilização maia esteve entre os povos mais sofisticados da América pré-colombiana. Seu domínio se estendeu por séculos, antes de ser encerrado pela colonizaçãoeuropeia. E uma de suas tecnologias era o calendário.
     Como todo artefato desse tipo, ele se presta, em primeiro lugar, a marcar ciclos importantes, como a hora de plantar e de colher, ou a aparição de determinados astros no céu. Para esse tipo de referência, um calendário de 365 dias é o mais indicado, porque reflete de forma mais acurada o movimentto da Terra ao redor do Sol. Os maias possuiam um desses, mas marcavam datas específicas e registros históricos por outro calendário.
     Para essa solução alternativa, adotaram um ano (tun) de 360 dias, divididos em 18 meses (winal) de 20 deias cada. Mas, diferentemente do que fazemos, eles não consideravam o ano a unidade essencial de data. Ainda tinham o k'atun (que correspondia a 20 tun) e o b'a'tun (que correspondia a 20 k'atum). Pois bem: o dia 21 de dezembro de 2012, segundo a maior parte dos especialistas, marca o final do b'a'ktun de número 13 na contagem do calendário maia.
     Depois disso, o que acontece? Começa o b'a'ktun 14. Só isso. "Em nenhum lugar se diz que o ciclo que estamos vivendo será o último", afirma Eduardo Natalino dos Santos, professor de história da América pré-colombiana da Universidade de São Paulo (USP).
     Ou seja, a ideia de que o mundo vai acabar em 2012 pelo calendário maia é a mesma que levou alguns a pensar que o ano 2000, pela contagem gregoriana, marcaria o final dos tempos. É o fenômeno do número redondo, versão pré-colombiana.

     2.Os terremotos recentes são sinais do apocalipse?
     É difícil não se assustar com as notícias de terremotos. A impressão que dá é que, a cada dia, ocorrem mais desses fenômenos, e seu efeito fica mais devastador a cada nova ocorrência.
     Mas é só impressão mesmo, segundo os sismólogos. "Os terremotos são aleatórios. Não têm hora nem época certas para acontecer", explica Marcelo Assumpção, sismólogo da USP. "Há períodos em que, por coincidência, ocorrem com mais frequência e outros em que estão mais espaçados, mas trata-se de uma flutuação estatística. A longo prazo, o número de terremotos não está nem aumentando, nem diminuindo".
     Em linhas gerais, os cientistas entendem o que ocasiona os terremotos. São processos de acomodação da crosta terrestre. As placas tectónicas (que carregam consigo os continentes) estão em constante movimento, e o atrito entre elas produz os tremores. Por isso há regiões do globo muito sujeitas a grandes terremotos que outras - são aquelas localizadas sobre áreas de divisa entre duas ou mais placas tectônicas.
     O Brasil, felizmente, está bem no meio de uma placa, de forma que os tremores possíveis por aqui são sempre de menos escala. Mas lugares como o Chile, por exemplo, estão sempre sujeitos a violentos terremotos. O que a ciência não consegue (e possivelmente nunca conseguirá) prever é o momento exato em que ocorrerá um abalo sísmico. Isso porque a previsão exigiria a instalação de inúmeros equipamentos de medição nas profundezas da crosta terrestre, o que é tecnicamente inviável.

     3.Uma mudança do polo magnético pode causar alterações devastadoras na Terra?
     Todo sabe que as bússulas sempre apontam para o norte, certo? Pois é, mas nem sempre foi assim. A cada 400 mil anos, em média, o polo magnético terrestre se inverte. estima-se que uma nova inversão (sim, as bússulas passaram a apontar para o sul) pode acontecer em breve (isso em escala de tempo geológica, ou seja, não quer dizer que estaremos aqui para ver).
     Mas os registros geológicos mostram que essa mudança não causa dano algum à biosfera. (tá, para não dizer que ninguém sente nada, talvez algumas aves que usam um "sexto sentido" capaz de sentir o polo magnético para definir a direção de sua migração se sintam um pouco perdidas, ao menos no início).
     Esse fenômeno acontece pela dinâmica produzida no interior da Terra, sobretudo na interação do manto pastoso com o núcleo de ferro do planeta. Essa movimentação interna produz um efeito similar ao de um dínamo, que cria a polarização magnética norte-sul. Vez por outra, há uma inversão.
     A sugestão de que a Terra poderia mudar sua rotação, ou girar ao contrário, por causa da mudança, de polo magnético não faz sentido nenhum. Até a Nasa, preocupada com a boataria a respeito de 2012, elaborou um questionário de perguntas e respostas em que essa hipótese é desmentida por completo. "Uma reversão da rotação da Terra é impossível", diz categoricamente a agência espacial americana. "Há pequenos movimentos dos continentes (por exemplo, a Antártida já esteve perto do equador há centenas de milhões de anos), mas eles são irrelevantes para as afirmações de que os polos de retação poderiam se inverter.
     Aqui, o truque dos farsantes do fim do mundo é fazer as pessoas confundirem a inversão dos polos magnéticos (fenômeno que deve ocorrer) com a inversão dos polos de rotação (que jamais acontecerá).

     4.Poderia um planeta gigante e desconhecido se chocar com o nosso?
     Quem nunca ouviu falar de astros como Nibiru e Hercólubus, o famoso planeta chupão? eles têm duas coisas em comum: (1) seriam capazes de destruit a vida na Terra e (2) são obras de ficção.
     Na fronteira entre o esoterismo e o catastrofismo, encontramos histórias como essas. Nibiru é supostamente um planeta descoberto pelos sumérios, mas que continua invisível à nossa ciência. Hercólubus, muitas vezes chamado de planeta Chupão, seria um mundo gigante, maior que Júpiter, descrito pelo indígena peruano V. M. Rabolú - o mesmo sujeito que andou falando sobre peixes em Vênus (planeta com temperatura média de 480 graus Celsious).
     Todos esses mundos errantes têm um único destino: se chocar com a Terra. Há quem diga que já em 2012, outros falam em 2043, e por aí vai. tem por onde?
     "Isso não passa de invenção", diz Cássio Leandro Barbosa, astrônomo da Universidade do Vale do Paraíba
    

O Apocalipse de Paulo

     Paulo nasceu em Tarso, cidade da Cilícia. Seu pai era cidadão romano e, por isso, por muito tempo, defendia sua cidadania romana, embora pertencesse à tribo de Benjamin. Saul ou Saulo era o seu nome judaico.
     Paulo morreu decapitado por volta do ano 66, fora dos muros de Roma, por ordem do imperador Nero. Conta-se que, quando foi degolado, de sua cabeça saiu leite.
     Ele é considerado o mais importante convertido da história do Cristianismo. Antes de se tornar seguidor de Jesus, tinha sido um feroz perseguidor de cristãos.
     Sua conversão é descrita no texto canônico "Atos dos Apóstolos". Paulo é autorizado a seguir até Damasco, na Síria, pelo suma sacerdote de Jerusalém, para encontrar os seguidores de Jesus nas sinagogas judias e levá-los presos a Jerusalém. No caminho, ele se viu envolvido numa forte luz que o cegou temporariamente. Ouviu uma voz: "Saulo, Saulo, por que me persegues?". Paulo então respondeu: "Quem és, Senhor?" E a voz respondeu: "Eu sou Jesus, a quem tu persegues. Mas levanta-te, entra na cidade e te dirão o que fazer".
     Alguém o segurou pela mão e o guiou até Damasco, onde encontrou Ananias que, instruído em sonhos por Jesus, impõe as mãos sobre Paulo, cura-o da cegueira e lhe dá instruções. Paulo se converteu com o batismo, provavelmente feito por Ananias.
     A data e a origem do apócrifo Apocalipse de Paulo não são precisas. O texto faz parte da Biblioteca de Nag Hammadi e foi escrito provavelmente por volta do século 2.
     O texto tem início com Paulo narrando o seu encontro com uma criança a caminho de Jerusalém, no morro de Jericó. No texto, a criança representa um espírito-guia e, por vezes, é chamada por ele de Espírito Santo. a criança o guia até o Céu, para que Paulo encontre seus companheiros apóstolos, que o acompanharão em sua ascensão.
     No quarto céu, ele presencia o julgamento das almas; no quinto, observa os anjos orientando as almas que serão julgadas. O sexto Céu é descrito repleto de uma luz intensa que vem das alturas. No sétima Céu, ele se depara com um ancião sentado num trono. Quando ele consegue chegar ao último Céu, ele é transformado para que possa saudar seus companheiros espíritos.(Compilação feita da Revista Arquivos Secretos Especial, por Elizabeth Cavalcanti da Costa)   

O Livro de Enoch

domingo, 25 de julho de 2010

Evangelho de Judas

     O manuscrito foi encontrado por um agricultor em meados da década de 1970, em El Minta, vilarejo desértico ao sul do Cairo.
     O homem, vasculhando túmulos antigos, encontrou uma caixa de pedra com livros e a vendeu por um preço muito baixo.
     Em 1978, não se sabe exatamente de que forma, a preciosidade se encontrava em mãos do mercador egípcio de antiguidades, Hana Airian. Agindo no mercado negro, ele ofereceu os manuscritos a Nikolas Koutoulakis, um grego que morava na Suíça, que também não tinha boa fama. Durante as negociações, os papiros desapareceram e reapareceram mais tarde na residência de Nikolas.
     No início da década de 1980, durante uma discussão com a namorada, Koutoulakis acabou rasgando o manuscrito, pois durante a briga ela tentou se apoderar dos documentos.
     O mercador Hana conseguiu reaver o documento e passou a procurar por clientes mais honestos. Ele pedia por eles o valor de 3 milhões de dólares. Não encontrando comprador, deixou os manuscritos num cofre do Citibank, Long Island. Após 16 anos, quando foram retirados do local, eles praticamente tinham virado pó.
     Em 2000, Frieda Nussberger-Tchacos, negociante de antiguidades, adquiriu o antigo códice, que incluía o Evangelho de Judas, quando ele já estava à venda há quase 20 anos. Rodolphe Kasser, especialista suíço em textos coptas antigos, ao examinar os manuscritos afirmou que nunca tinha visto um documento em piores condições de conservação.
     Devido às precárias condições, Frieda decidiu entregá-los à Maecenas Foundation for Ancient Art, que após recuperar e traduzi-los, os entregaria ao Museu Copta do Cairo.
     A National Geographic e o Instituto Waitt decidiram colaborar com o Maecenas Foundation em todo o processo de recuperação do códice. Os testes de carbono realizado no material demonstraram que foi escrito entre 220 e 340. Trata-se de uma cópia em copta dos textos originais escritos em grego durante o século 2. Das 120 páginas, sobraram apenas 62, sendo 26 do Evangelho de Judas.
     O conteúdo e o estilo linguístico do códice fornecem provas de sua autenticidade. Eles se assemelham a conceitos encontrados na Biblioteca de Nag Hammadi, no Egito, em 1945. O códice, segundo o dr. Stephen Emmel, especialista em paleografia, foi escrito por um escriba profissional: "Esse tipo de escrita lembra muitos os códices de Nag Hammadi. Não é uma caligrafia idêntica a nenhum deles; mas é um tipo semelhante de escrita. Não reflete apenas a visão gnóstica do mundo".
     Desde os primeiros séculos da era cristã, o nome de Judas se tornou sinônimo de traição. Entretanto, o documento encontrado demonstra que o único apóstolo que realmente compreendeu Jesus foi Judas.
     Sobre sua vida pessoal, pouco se sabe. O seu sobrenome, Iscariotes, um lugarejo perto de Hebron, no sul da Judeia. Até então, o que se conhecia de Judas era por meio dos evangelhos canônicos. O documento narra os acontecimentos que anteciparam a Páscoa, nos dias anteriores à morte de Jesus. O conteúdo revela que Judas era o discípulo mais próximo de Jesus e que era o único que compreendia a essência de seus ensinamentos, as suas palavras.
     No manuscrito, há a narração de uma história que retrata essa aproximação. Jesus desafiou os apóstolos, acusando-os, em tom de zombaria, de não rezarem por vontade própria, mas apenas para agradecerem a Deus. Os apóstolos, segundo o manuscrito, ficaram enfurecidos e blasfemaram contra o líder em seus corações. Judas foi o único a compreender as palavras de Jesus. O Mestre então lhe propôs que se afastasse dos outros e afirmou que lhe ensinaria os mistérios do Reino, pois acreditava que ele os entenderia.
     Segundo os textos, Jesus revelou a Judas a existência de um mundo superior que era habitado por Deus, "um espírito que nunca foi chamado de nenhum nome". Foi desse espírito que teve origem uma linhagem de anjos, sendo que um deles havia criado a Terra. Jesus dizia que o Deus adorado pelos judeus era um Deus inferior, pois em sua criação aprisionava o espírito humano. O Mestre dizia que a salvação e o encontro com o Deus bom só aconteceriam quando o homem buscasse sua porção divina interior. Somente assim ele conseguiria a libertação.
     Jesus revela também que Judas seria superior a todos, porque "sacrificará o homem que me veste".
Judas deveria matar a parte física de Jesus para que ele se livrasse do corpo que aprisionava seu espírito. Judas cumpriu  à risca as ordens do mestre. Procurou pelos sacerdotes e denunciou Jesus. Em troca, recebeu algumas moedas. O evangelho apócrifo de Judas termina nesse trecho da história.
     Os evangelhos canônicos, o Atos dos Apóstolos e até mesmo os textos apócrifos contam uma história diferente sobre Judas. O Evangelho de Marcos, por exemplo, escrito por volta de 65, cita Judas três vezes e afirma que ele foi o responsável pela traição, porém afirma que a recompensa recebida foi oferecida pelos sacerdotes. Lucas diz que Judas foi dominado por Satanás e traiu Jesus por esse motivo. O Evangelho de Mateus associa a delação de Judas à sua ganância, pois teria recebido 30 moedas de prata, o valor aquivalente a um escravo na época. Mateus ainda relata o arrependimento de Judas, que se enforcou. João justifica a traição de Judas acreditando que ele teria sido possuído por um demônio, e também relata a sua ganância.
     Em textos considerados apócrifos, a justificativa é associada ao descontentamento de Judas diante do Mestre. Ele acreditava que Jesus deveria lutar com armas contra os romanos. Há ainda textos segundo os quais Judas acreditava que o povo de Jerusalém se revoltaria com a prisão de Jesus e o libertaria, colocando-o no trono.
     Para muitos estudiosos, como Marvin Meyer - coordenador de tradução do Evangelho de Judas e especialista em Bíblia da Universidade Chapman, EUA -, o principal mérito do Evangelho de Judas é demonstrar que existia uma diversidade de opiniões no início do Cristianismo. Como se sabe, os evangelhos não foram escritos pelos próprios apóstolos, mas por seus seguidores. Acredita-se que o Evangelho de Judas foi escrito por alguma comunidade gnóstica, um dos ramos do Cristianismo primitivo. Os gnósticos acreditavam que os homens se libertariam da prisão do corpo físico quando conhecessem a parcela divina que tinham dentro de si.
     Meyer ainda observa que o texto foi escrito por alguém que tinha reverência por Jesus, que aparece como uma figura menos sofredora. No texto, ele ri quatro vezes e demonstra ter humor com a condição humana, em todas as fraquezas e singularidades de sua vida na Terra.
    
   

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Evangelho de Pedro

     Pedro, o pescador, nasceu na cidade de Betsaida, na Galileia. Ele era casado e tinha uma filha, Petronília. Morreu crucificado de cabeça para baixo, por ordem do imperador Nero, em 64.
    No apócrifo Atos de Pedro, Pedro teria sido crucificado por ordem do prefeito de Roma, Agripa. Nessa versão, o prefeito estaria aborrecido com Pedro por ele ter recomendado a castidade a sua mulher, que se afastou de seu convívio.
     O seu nome era Simão Pedro, mas Jesus o chamou de Kephas (Jo 1:42). A palavra kephas significa "rocha". O termo sugere que Jesus lhe deu a liderança de uma igrja que nascia entre os pobres. O nome Pedro também faz referência ao alicerce, a pedra da Igreja que nascia.
     Em alguns círculos, Pedro é conhecido como bispo de Roma, o primeiro papa. O autor Bart D. Ehrman disse, em sua obra Pedro, Paulo e Maria Madalena (Ed. Record), que vários autores afirmam que Pedro não foi o primeiro líder da Igreja nessa época, e certamente não foi o primeiro bispo: "Segundo algumas tradições, aliás, ele se ligou à Igreja romana muito depois dela ter sido fundada".
     Pedro esteve em Antioquia, na Síria, em Corinto e em Jerusalém. Não se sabe exatamente quem fundou a Igreja de Roma, embora algumas teorias afirmem que teria sido fundada por Pedro e Paulo. O primeiro bispo, segundo Irineu, do século 2, teria sido Lino. Eusébio, o pai da história da Igreja, em parte de sua obra concorda com isso. Entretanto, em outros trechos ele diz que Lino foi bispo de Roma depois de Pedro.
     Os livros canônicos são unânimes em reconhecer a liderança apostólica de Pedro entre os primeiros cristãos. Em Atos dos Apóstolos ele é descrito como um pregador, visionário, milagreiro e homem de oração. Jesus muitas vezes demonstrou predileção por ele, fazendo questão de sua presença em determinadas ocasiões, como no caso da ressurreição da filha de Jairo.
     Após Jesus ter sido preso em Getsêmani, Pedro negou três vezes que era discípulo, conforme o Mestre previra (Mt 26:69-75). Ele acompanhou, à distância, a paixão e a morte do Mestre, enquanto Maria Madalena esteve com Jesus até seus momentos finais.
     Pedro tinha um temperamento forte e ficava nervoso com facilidade. Ele foi preso duas vezes e libertado por não encontrarem motivo para condená-lo. Certa ocasião, ele e outros apóstolos foram açoitados. Ao invés de se revoltar, encheu-se de alegria por merecerem os maus tratos em nome do Mestre (At 5:40-42).
     Os textos apócrifos O Evangelho de Pedro, a Filha de Pedro e o Apocalipse de Pedro foram descobertos em 1887, na tumba de um monge, em Akhmin, Egito. O Evangelho de Pedro foi escrito na Antioquia entre 120 e 130 e é considerado a tradição apócrifa mais antiga sobre a paixão de Jesus, tendo Pedro como narrador dos fatos. Durante muito tempo, esse Evangelho foi usado por algumas comunidades cristãs.
     O Apocalipse de Pedro foi escrito provavelmente no final do século 2, na Síria ou no norte da Palestina. O texto demonstra a sua liderença apostólica, a sua autoridade em repassar os ensinamentos de Jesus, descrevendo Pedro como um gnóstico convicto, que tinha o conhecimento da verdadeira essência do Salvador.
     Atos de Pedro e Os Doze Apóstolos provavelmente foram escritos no final do século 2, por um judeu gnóstico. Na obra, Pedro dá orientações aos apóstolos e recomenda que permaneçam fiéis aos ensinamentos de Jesus. Ele prega o anúncio da Palavra, rejeição aos desejos do mundo, pobreza e jejum.
     Atos de Pedro também narra suas atividades missionárias e sua morte em Roma. A obra descreve a forma como Pedro enfrentou o mago Simão, que criava confusão entre os cristãos. Além de narrar milagres realizados por Pedro, a obra descreve a sua morte na cruz.
     A Epístola de Pedro a Filipenses é datada entre os séculos 2 e 4. Escrita em grego, tinha como tema principal a defesa da liderança de Pedro entre os apóstolos.
     O conhecido fragmento "A Filha de Pedro" é considerado como parte do Atos de Pedro. Na obra, ele aparece como um curandeiro que protegia sua filha paralítica para que ela se mantivesse virgem, pois o ideal da virgindade era observado como caminho da salvação.
     Na verdade, sua filha, Petronília, tornou-se paralítica quando Deus atendeu ao pedido de Pedro. Aos 10 anos, a jovem já era muito bela. Um jovem fazendeiro, Ptolomeu, apaixonou-se por ela e a pediu em casamento. Pedro não aceitou o pedido. Inconformado, Ptolomeu raptou-a e Pedro, desesperado, pediu a Deus que protegesse a virgindade da filha. Petronília ficou paralítica e Ptolomeu a devolveu aos pais.
A história ainda narra que Ptolomeu teve uma visão que o fez se aproximar de Pedro e ver Petronília apenas como uma irmã. Em outra passagem, uma multidão desafiou Pedro a curar a filha. Ele o fez, apenas para demonstrar ao povo o poder de Deus, mas, em seguida, pediu que ela voltasse a ser paralítica. A narração ainda conta que a filha de Pedro morreu paralítica e virgem.
     Para muitos pesquisadores, a história da filha de Pedro reforça as atitudes negativas que ele mantinha em relação às mulheres. Entretanto, existem teorias de que havia um ideal de santidade entre os cristãos que negava a sexualidade, daí a importância da virgindade. Seus adeptos eram conhecidos como encratistas e viviam de forma ascética.
     Uma outra polêmica narrada nos apócrifos e relacionada a Pedro é sua rejeição à liderança que Maria Madalena exercia no início do Cristianismo. Em diversas passagens dos livros apócrifos, Pedro demonstra desdém pelo conhecimento de Madalena, e em determinada ocasião chega mesmo a pedir que Jesus a afaste do grupo, pois julgava que as mulheres não eram dignas. Em outras ocasiões, embora considere os ensinamentos de Madalena como verdadeiros, Pedro questiona o fato do Mestre ter dividido conhecimentos elevados com uma mulher. Algumas comunidades cristãs conservaram textos nos quais Pedro é descrito como misógino, alguém que tem aversão às mulheres.
     Quando Maria, mãe de Jesus, morreu, Pedro estava ao seu lado com os outros apóstolos. Ele ajudou a colocar o seu corpo no ataúde e conduziu o enterro até um sepulcro no Getsêmani, onde o corpo da virgem, após três dias, foi levado para o céu por anjos.   

Apócrifo de João

     João é considerado um dos mais importantes apóstolos de Jesus e se firmou como um importante líder do Cristianismo. João foi chamado de Boanerges por Jesus Cristo, significando "filho do trovão" (Mc 3:17). Filho de Zebedeu e Salomé, era irmão de Tiago Maior.
     Depois da morte de Jesus, ele cuidou de Maria a pedido do Mestre, e embora tenha saído para pregação, retornou para presenciar sua morte.
     Diferente dos outros apóstolos, João morreu sem ser martirizado. Ele envelheceu em Éfeso, numa pequena casinha junto a amigos. Quando estava com 97 anos, recebeu a visita de Jesus que o avisou que, em cinco dias, estariam juntos. João pediu para ser enterrado vivo. Conta-se que pediu seu túmulo fosse cavado e, antes de ser enterrado, declarou seu amor, devoção e dedicação a Jesus. Quando ordenou que cobrissem com terra, entregou seu espírito. De seu sepulcro nasceu uma árvore de maná.
     O apócrifo de João faz parte da Biblioteca de Nag Hammadi e é considerado uma importante obra gnóstica, pois descreve a criação, a queda e a salvação da humanidade. Na obra, a divindade mais elevada é definida em um conceito abstrato grego de perfeição, de onde emana uma série de seres iluminados, como Jesus e Sophia.
     Segundo o apócrifo, a queda ocorre quando Sophia cria um ser sem a aprvação do grande Espírito, Yaldabaoth, o monstruoso criador-deus. Ele então cria os anjos para governar o mundo e auxiliar na criação do homem. O homem é criado pela imagem perfeita do Pai e ganha vida quando Yaldabaoth sopra o poder de luz sobre ele.
     A partir daí, há o início de uma luta constante entre os poderes da luz e da escuridão. Segundo o apócrifo, os poderes do mal colocam o homem num corpo físico, mantendo-o assim aprisionado. Esses mesmos poderes criam a mulher e o desejo sexual, para dificultar a fuga.
     Cristo então é enviado para fazer com que as pessoas se recordem de sua origem celestial e, dessa forma, salvar a humanidade. Segundo a obra, somente aqueles que conseguem viver de forma ascética e que possuem o conhecimento poderão retornar ao reino de luz. Os outros deverão reencarnar até que conquistem o conhecimento.
     O apócrifo de João fornece respostas para as duas grandes dúvidas: Qual é a origem do mal? Como podemos escapar de um mundomelévolo para a nossa casa celestial?
     O texto de João tem início narrando que, quando subiu ao templo, um fariseu chamado Arimanes se aproximou dele e perguntou: "Onde está seu mestre a quem você seguia?" E ele respondeu: "Ele retornou para o lugar de onde ele veio". O fariseu disse a ele: "Este Nazareno os enganou com ilusão, ele encheu suas orelhas com metiras, fechou seus corações e desviou vocês das tradições dos seus pais".
     Quando João ouviu as palavras do fariseu, abandonou o templo e foi para um lugar deserto, com o coração repleto de dúvidas. Os céus se abriram e João teve a visão repleta de luz que se apresentava ora como criança, ora como um velho, e outras vezes como um jovem.
     E foi dessa visão de três formas que ele conseguiu respostas para suas dúvidas.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Evangelho de Madalena

     O Evangelho de Maria Madalena pertence ao Codex Akhmin, também chamado Papyrus Berolinensis 8502. Foi descoberto na cidade de Akhmin, no Egito, em 1896, e adquirido no Cairo pelo pesquisador alemão Carl Reinhardt.
     Originalmente, tinha 19 páginas em papiro, escrito em dialeto copta egípcio. O texto estava incompleto; faltam as páginas de 1 a 6, e de 11 a 14. Em 1955, uma tradução foi publicada pela primeira vez.
Entre 1897 e 1906, dois outros fragmentos desse evangelho foram encontrados pelos ingleses Bernard Pyne Granfell e Arthur Surridge Hunt. Escritos em grego, são denominados Papyrus Oxyrhynchus e o Papyrus Ryland 463. A versão desses novos fragmentos, que complementam e confirmam o texto do Codex Akhmin, foi publicada em 1983.
     O Evangelho de Madalena é considerado um dos mais importantes evangelhos apócrifos, pois contribuiu muito para a compreensão das origens do Cristianismo. O manuscrito em grego foi escrito por volta do ano 150, e a sua cópia em copta na século 5.
     Acredita-se que o Evangelho de Maria Madalena é fruto da comunidade que se formou sob sua liderança e que, de certa forma, foi uma reação contra a institucionalização do Cristianismo na linha masculina e hierárquica. Jesus sempre esteve próximo das mulheres  e dos excluídos das sociedades, como os pobres, pecadores e enfermos. Os evangelhos canônicos não retrataram a liderança de mulheres apóstolas e discípulas de Jesus, como Maria Madalena.
     Maria Madalena nasceu na cidade de Magdala, na Galileia. Era uma mulher de posses que, após uma experiência religiosa, tornou-se discípula de Jesus, acompanhando-o em suas viagens, junto a outros discípulos, homens e mulheres.
     Nos evangelhos apócrifos, Filipe a apresenta como companheira de Cristo. No Evangelho de Tomé, é a consorte do Senhor e sua interlocutora mais importante, e na Pistis Shofia, tratado gnóstico do século 3, a maior parte das perguntas é feita por Maria Madalena.
     Nos Evangelhos canônicos e apócrifos, ela sempre é identificada com Jesus. A sua morte não é relatada nos apócrifos, e há quem diga que ela teria fugido de Jerusalém no ano 42, devido à perseguição dos romanos aos cristãos. Daí a tradição que ela teria se tornado eremita.
     Ela é a figura feminina mais citada no Novo Testamento e personagem importante na cena da ressurreição de Jesus. Na Bíblia, as imagens frequentemente associadas a Maria Madalena são a da pecadora que unge os pés de Jesus (Lc 36:8), a da mulher que derrama sobre sua cabeça um precioso bálsamo (Mt 26:6-7) e da esposa que está prestes a ser apedrejada por adultério e é salva por Jesus (Jo 8:3-12).
     Na época, o termo "pecadora" para os fariseus podia significar tanto uma mulher de costumes depravados quanto uma mulher que não observava os preceitos dos fariseus. No livro hebraico, o Talmude, uma pecadora podia ser uma mulher que dava de comer ao marido com um alimento sobre o qual não havia dado o dízimo.
     Em 591, o papa Gregório fez um sermão na Páscoa (homilia 33), no qual ele fundiu Maria Madalena com a pecadora anônima da cidade. De acordo com os estudiosos da atualidade, o papa desferiu um golpe praticamente fatal, numa época em que as mulheres eram cada vez mais marginalizadas, por serem julgadas como uma ameaça à verdadeira fé.
     "Aquela a quem Lucas chama de mulher pecadora, a quem João chama de Maria Madalena, nós acreditamos ser a Maria da qual sete demônios foram expulsos, de acordo com Marcos. E o que significam os demônios, senão os vícios?". O papa Gregório, entre diversas colocações negativas sobre Maria Madalena, afirmou que o bálsamo usado pela mulher era o mesmo que usava para perfumar sua carne para atos proibidos.
     O padre Richard Mcbrian da Notre Dame University afirma que não existem fatos que provem que Maria Madalena fosse prostituta. Naquela época, as doenças comuns entre a população eram atribuídas a demônios. O estudioso acredita que os "demônios" poderiam ser doenças, e a expressão "expulsar os demônios" pode ser considerado o mesmo que "curar".
     Apesar de ter sido rotulada como prostituta pela Igreja ocidental no século 6, existem provas de que Maria Madalena era uma pessoa respeitada pelos primeiros líderes masculinos da Igreja. O bispo de Roma, Hipólito, naascido em 170, afirmava que ela era o apóstolo para os apóstolos.
     Por outro lado, por muito tempo a Igreja oriental aclamou a importância de Maria Madalena, dando importância ao papel da mulher em suas comunidades. Diversos teólogos orientais viam-na como uma mulher honrada, digna de destaque em seu papel dentro do Cristianismo. Dentre eles, vale a pena citar Cirilo de Alexandria, e Proclus, patriarca de Constantinopla, por volte de 444.
     O Evangelho de Maria Madalena é formado por ensinamentos de Jesus repassados por ela aos apóstolos. A primeira parte descreve o diálogo de Jesus já ressuscitado com seus discípulos. Ele responde sobre questões relacionadas à matéria e ao pecado. Antes de partir, o Mestre aconselha-os a se protegerem de qualquer um que os tente a desviar do caminho, e pede que saiam a pregar o Evangelho. Após a sua partida, os discípulos, repletos de dúvidas e aflitos, são acalmados por Madalena.
    A segunda parte do texto narra a descrição de Madalena aos discípulos de uma revelação que lhe fora transmitida por Jesus. A pedido de Pedro, ela narra as coisas que estavam ocultas. Nesse trecho do Evangelho, faltam quatro páginas.
     As páginas seguintes descrevem a revelação que teve, em forma de diálogo. Jesus revela que a alma vê por meio da mente, que está entre a alma e o espírito. O texto é interrompido e retorna na página 15. Maria descreve que Jesus lhe ensinou que, durante a ascensão, a alma atravessa quatro poderes. Depois que Madalena termina a descrição dos ensinamentos, André e, em seguida , Pedro, desafiam-na argumentando que os ensinamentos eram estranhos, duvidando que Jesus tivesse feito revelações daquele porte para uma mulher. Madalena se comoveu diante das dúvidas e lhes perguntou se julgavam que ela estava mentindo.
     Na ocasião, Levi interrompeu e disse a Pedro que se Jesus a havia feito digna, quem era ele para rejeitá-la. Depois que Levi disse essas palavras, eles imediatamente começaram a sair para anunciar e pregar a palavra do Mestre.
     A oposião de alguns apóstolos a Maria, como André e Pedro, é considerada como um reflexo dos confrontos existentes na Igreja do século 2. Significava o sinal de que a Igreja oficial se oporia às revelações esotéricas e à liderança da mulher.
     Margareth Starbird, em sua obra Maria Madalena, a Noiva no Exílo (Ed. Cultrix), afirma que "a rivalidade entre o modo de ser de Pedro e Maria Madalena tem sua origem na psicologia do masculino e feminino (...). Pedro, a Pedra, representa a versão ortodoxa do Cristianismo e tem garantida a passagem para o Paraíso pela mediação de sacerdotes hierárquicos, com autoridade absoluta sobre suas vidas e suas almas, a quem eles devem honrar e obedecer. Maria é o caminho do coração - o relacionamento apaixonado com o Divino e com a criação".
  

Pistis Sophia

     O texto original do Pistis Sophia, escrito em grego, foi guardado numa tradução em copta, dialeto egípcio, feita provavelmente entre o s séculos 3 e 4 de nossa era.
     O códice foi levado para a Inglaterra em 1772, por um médico, dr. Anthony Askew, que colecionava manuscritos antigos. Mais tarde, o documento, conhecido como Códice Askew, foi adquirido pelo Museu Britânico. O seu conteúdo foi traduzido para o latim por volta do século 19 e, mais tarde, para o francês, alemão e inglês.
     O título Pistis Sophia é traduzido geralmente como "sabedoria da Fé". O manuscrito, numa versão mais simplificada, também foi encontrado em um papiro em Nag Hammadi, em 1945.
     O texto afirma que Jesus, após a ressurreição, permaneceu no mundo por 11 anos, instruindo seus discípulos até o "primeiro nível do mistério". No início, é traçado um paralelo entre a morte e ressurreição de Jesus, com a descrição da descida e da ascensão da alma. Há ainda a descrição de figuras importantes na cosmologia gnóstica e a lista de 32 desejos carnais que devem ser superados para se alcançar a salvação.
     No início do texto, Jesus se encontra no Monte das Oliveiras com seus discípulos. Depois de algum tempo, ele é elevado ao alto em meio a relâmpagos e trovões. Após 30 horas, Jesus retorna envolvido em três vestes de luz e anuncia: "A partir deste dia, vou falar-vos abertamente, desde o princípio da Verdade até o seu término(Plenitude); e vou falar, face a face, sem (usar) parábolas. A partir deste momento não vos esconderei nada do (mistério) alto e do lugar da Verdade. Pois, autoridade me foi dada, por intermédio do Inefável e do Primeiro Mistério de todos os mistérios, para falar-vos, desde o Princípio até a Plenitude (Pleroma), tanto de dentro para fora do exterior para o interior. Ouvi, portanto, para que possa dizer todas as coisas"(capítulo 6, Pistis Sophia).
     Para muitos estudiosos, o conteúdo do Pistis Sophia possui uma linguagem impenetrável devido ao seu simbolismo. O texto tem sido analisado por diversas tradições. O seu simbolismo é engenhoso em sua simplicidade. As entidades da narração representam os princípios do homem, revelando dessa forma o sistema psicológico subjacente aos ensinamentos do Mestre. A gematri(correspondência numérica das palavras) também é empregada no texto, revelando significados importantes e profundos.
(Compilação feita da Revista Arquios Secretos Especial).

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Evangelho de Tomé

     O Evangelho segundo Tomé, do apóstolo que precisava "ver para crer", é o mais polêmico do acervo de Nag Hammadi. Fragmentos de três papiros gregos - encontrados em um lixo em Oxirrinco, atual Behnesa, no Egito -, publicados em 1897, contêm sentenças atribuídas a Jesus quase idênticas às encontradas no Evangelho de Tomé de Nag Hammadi. Esses papiros eram representantes de edições gregas do Evangelho de Tomé.
     Por algum tempo, acreditou-se que os escritos descobertos eram de autoria  de um maniqueu, de um seguidor do místico gnóstico Mani. Atualmente, é consenso que o texto de Nag Hammedi foi escrito antes do movimento maniqueísta ter surgido.
     O texto, em copta, teria sido escrito ou traduzido em Edessa, sob a influência de Tomé, daí o nome Evangelho de Tomé. Ele teria sido composto durante o século 2 e sua redação final teria sido feita no final do século 4.
     Tomé, conhecido como Dídimo Tomé, teria parentesco com Jesus. Pregou a sua palavra na Índia e morreu a golpes de espada por quatro soldados, a mando de um rei.
     Segundo Luigi Moraldi, em sua obra Evangelhos Apócrifos (Paulus Ed.), Tomé era considerado depositário de secredos e revelações particulares referentes a Jesus. "Os escritos apócrifos atribuídos a ele também têm essa marca; daí o sentido velado e muitas vezes chocante que o distingue".
     Moraldi relata que em Atos, Tomé afirma: "Tu (Senhor) desvendas segredos escondidos e revelas palavras misteriosas"; e ainda, "Jesus, mistério escondido que me foi revelado, a mim, a quem revelaste teus mistérios mais que a todos os meus companheiros, a mim disseste palavras que me queimam, e que não posso manifestar".
     Ao contrário dos outros evangelhos conhecidos, quer sejam canônicos ou apócrifos, o Evangelho de Tomé não expõe narrativas sobre a vida de Jesus, mas atém-se às sentenças que teriam sido proferidas por ele a seus discípulos.
     O Evangelho de Tomé é formado por 114 sentenças independentes proferidas por Jesus. Os ensinamentos de Jesus descritos têm como objetivo levar ao homem o ideal da salvação gnóstica. Contém parábolas sem alegorias e ensinamentos sobre o reino de Deus e o comportamento do ser humano. O conteúdo ainda relata os caminhos para a busca de si e as palavras que não devem ser anunciadas aos profanos. O masculino e o feminino são convocados a viverem de forma integrada.
     O Evangelho de Tomé tem uma relação estreita com o de João, considerado gnóstico, assim como com o de Maria Madalena. Esses três evangelhos tinham como princípio a união do masculino e do feminino em cada ser humano.
     Na visão gnóstica de Tomé, Jesus era um sábio que caminhava com seus discípulos e que lhes ensinava palavras portadoras de vida. Essas palavras levavam o discípulo a tomar consciência de si mesmo e a caminhar em busca da plena realização de seu ser.
     Os evangelhos de Tomé e João propagavam o conhecimento da Palavra, Jesus, o Pai e a verdade, para se libertar da morte. Reconheciam que todo homem tem uma cegueira interna que o impede de conhecer a verdade.
     As comunidades de Tomé sabiam que compreender as palavras de Jesus significava interpretá-las de forma correta para tornar-se um seguidor fiel das palavras de vida. Dessa forma, a morte não teria lugar no cotidiano de uma vida mortal. As parábolas de Tomé revelam Jesus mais próximo dos camponeses e dos excluídos do sistema econômico romano, diferente dos evangelhos canônicos.
     O estudioso e autor Marvin Meyer considera o Evangelho de Tomé como um evangelho de sabedoria, no qual Jesus emprega a técnica também usada nos evangelhos canônicos, em que não define tudo, mas que se deixam histórias inacabadas ou com uma pergunta no ar. Assim, ele é um evangelho interativo, pois tem como objetivo provocar a reflexão e a interpretação.
     Ele encerra seus escritos falando sobre Pedro e Maria Madalena: "Simão Pedro disse: Seja Maria Madalena afastada de nós, porque as mulheres não são dignas da vida. Respondeu Jesus: Eis que eu atrairei, para que ela se torne homem, de modo que também ela venha a ser um espírito vivente, semelhante a vós homens. Porque toda a mulher que se fizer homem entrará no Reino dos Céus".(Tomé 114)
     Para o pesquisador Frei Jacir de Freitas Faria, em sua obra As Origens Apócrifas do Cristianismo: "esse texto deve ser entendido em sintonia com outras passagens do Evangelho de Maria Madalena e do tratado gnóstico Pistis Sophia, os quais descrevem a postura misógina de Pedro em relação às mulheres. Essa aversão de Pedro em relação às mulheres é o reflexo da disputa de liderança entre os primeiros cristãos. E nesse campo era normal que as mulheres não levassem a melhor, pois eram consideradas incapazes de aprender ensinamentos profundos. O grande pecado de Maria Madalena foi saber demais".(Compilação da Revista Arquivos Secretos Especial, por Ana Elizabeth Cavalcanti da Costa)

Trechos do Evangelho de Tomé

5.Conhece o que está ante os teus olhos - e o que te é oculto te será revelado; porque nada é oculto que não seja manifestado.
20.Disseram os discípulos a Jesus: Dize-nos, a que se assemelha o Reino dos Céus?
Respondeu-lhes ele: Ele é semelhante a um grão de mostarda, que é menor que todas as sementes; mas, quando cai em terra, que o homem trabalha, produz um broto e se transforma num abrigo para as aves do céu.
22.Jesus viu crianças de peito mamarem. E ele disse a seus discípulos. Essas crianças de peito se parecem com aqueles que entram no Reino. Perguntaram-lhe eles: Se formos pequenos, entraremos no Reino? Respondeu-lhes Jesus: Se reduzirdes dois a um, se fizerdes o interior como o exterior, se fizerdes o de cima como o de baixo, se fizerdes um o masculino e o feminino, de maneira que o masculino não seja mais masculino e o feminino não seja mais feminino - então entrareis no Reino.
47.Disse Jesus: O homem não pode montar em dois cavalos, nem pode retesar dois arcos. O servo não pode servir a dois senhores, pois ele honra um e ofende o outro. Nenhum homem que bebeu vinho velho deseja beber vinho novo. Não se coloca vinho novo em odres velhos, com medo que se rompam; vinho novo se coloca em odres novos, para que não se perca. Não se cose um remendo velho em roupa nova, para não causar rasgão.
57.Jesus disse: O Reino do Pai é semelhante a um homem que semeou boa semente em seu campo. De noite, porém, veio o inimigo e semeou erva má no meio da semente boa. O senhor do campo não permitiu que se arrancasse a erva má, para evitar que, arrancando esta, também fosse arrancada a erva boa. No dia da colheita se manifestará a erva má. Então será ela arrancada e queimada.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Evangelho de Filipe

      Filipe era natural da aldeia de Betsaida, na Galileia. Após a ascensão de Jesus, ele pregou sua palavra durante 20 anos na Cítia. Morreu com 87 anos, em Hierápolis, onde foi sepultado.
     O Evangelho de Filipe é considerado um livro apócrifo. Descoberto em Nag Hammadi, o texto foi redigido entre 180 e 350, provavelmente por alguns de seus seguidores. Ele é formado por uma série de declarações de Jesus, em diversos estilos literários (parábolas, provérbios, aforismos, etc). O texto em copta é uma cópia de um original em grego.
     A obra contém provérbios breves e enigmáticos de Jesus, e são mais facilmente interpretados sob o ponto de vista gnóstico. Eles são identificados pela forma como os introduz ("ele disse", "O senhor disse", "o Salvador disse").
     O Evangelho de Filipe se tornou especialmente famoso nos últimos tempos por ter sido citado no best-seller de Dan Brown, O Código da Vinci. Na obra, o autor faz referência a uma citação que consta no Evangelho de Filipe e que pode significar a união marital entre Jesus e Maria Madalena: "E a companheira do Salvador é Maria Madalena. Mas Cristo a amava mais do que a todos os discípulos e costumava beijá-la frequentemente na boca. Os demais discípulos se ofendiam com isso e expressavam desagrado".
     Beijar, nashak, em hebraico, significa respirar junto, compartilhar o mesmo fôlego.
     Jean Yves Leloup, filósofo, teólogo e sacerdote ortodoxo foi o tradutor de muitos evangelhos apócrifos, inclusive o de Filipe. O estudioso acredita que os textos encontrados em Nag hammadi foram enterrados ali por revelarem a intimidade física entre Maria Madalena e Jesus. Para ele, o Evangelho de Filipe não trata apenas da santidade da comunhão espiritual, mas expressa também a natureza sagrada da união física de um homem e uma mulher, o mistério da câmara nupcial.
   
     Trechos do Evangelho de Filipe

     - Luz e treva, vida e morte, direita e esquerda são irmãos entre si. São inseparáveis. Por isto, nem os bons são bons, nem os maus são maus, nem a vida é vida, nem a morte é morte. Assim é que cada um se dissolverá em sua origem primordial. Mas os que estão exaltados acima do mundo são indissolúveis, eternos.
     - Jesus pegou-os todos de surpresa, porque Ele não apareceu como era, mas de maneira como (seriam) capazes de vê-lo. Apareceu aos grandes como grande, aos pequenos como pequeno, aos anjos como anjo, e aos homens como homens. Por isto sua palavra ocultou-se de todos. Alguns realmente o viram, pensando que estavam vendo a si mesmos. Mas quando apareceu gloriosamente aos discípulos sobre a montanha, não era pequenino. Ele se tornou grande, mas fez com que os discípulos ficassem grandes, para que pudessem percebê-lo em sua grandeza.

  

Gnosticismo

     O gnosticismo foi um movimento religioso que, nos primeiros séculos do Cristianismo, desdobrou-se em diversas seitas, que partilhavam uma concepção de gnose em comum, combatida e rejeitada pela Igreja.
     Em grego, gnosis significa "conhecimento", e para os gnósticos era o mesmo que uma compreensão espiritual que só poderia ser obtida por meio de um autoexame constante, geralmente acompanhado de sonhos ou visões, na maior parte das vezes longos e estranhos. A gnose designava um conhecimento profundo e superior do mundo e do homem.
     Segundo a obra de Frei Jacir de Freitas Faria, As Origens Apócrifas do Cristianismo(Paulinas): "O gnosticismo foi um movimento de resistência aos cristãos que se organizavam em uma instituição eclesial. Estaarvorava o poder divino para direcionar o movimento de Jesus. Um gnóstico, por acreditar na presença divina em si mesmo, não poderia, é claro, acreditar em uma instituição humana, terrena. Assim os gnósticos tinham como objetivo, entre outros, ser uma alternativa à institucionalização do Cristianismo. Para um gnóstico, não havia necessidade da mediação de uma instituição eclesiástica para entrar em contato com Deus. Cada fiel poderia comunicar-se diretamente com ele. O primado de
Pedro foi, por isso, contestado e não aceito por eles. O Primeiro Concílio de Constantino(381 E.C.) condenou o gnosticismo como movimento herético).

Os primeiros cristãos

     Na obra A Verdadeira História de Maria Madalena (Ediouro), de Dan Burstein e Arne J. de Keijzer, o pesquisador e autor Mervin Meyer diz que havia diversidade entre os primeiros cristãos, diferentes maneiras de entender o que as "boas novas de Jesus" realmente acarretavam, e o que significava sequi-lo. Algumas dessas diferenças transformaram-se em polêmicas, nem sempre de natureza afável ou gentil.
     Nos primeiros séculos do Cristianismo, as comunidades cristãs tinham diversas origens e eram organizadas de formas diferentes. Havia uma tradição oral diversificada que incluía apresentações diferentes dos evangelhos, dos atos dos apóstolos, assim como das cartas apostólicas e apocalipses. As diferenças seguiam as mais variadas formas de pensar e de viver de cada comunidade cristã.
    Entre os primeiros cristãos, havia os ebionitas, que se consideravam judeus e tinham Jesus como o salvador exclusivo do povo judeu. Defendiam a ideia de que Jesus tinha nascido de forma natural e que, depois de batizado, foi adotado por Deus.
     Para os docetas, Jesus possuía um corpo etéreo, e eles acreditavam que não havia nascido, morrido na cruz e muito menos resuscitado. Além disso, não o consideravam filho de Maria.
     Os ofitas acreditavam que Caim era o representante espiritual mais elevado. Para eles, a morte de Jesus, embora tenha sido um crime, fora um evento necessário para a salvação da humanidade.
     Havia também os marcionistas, que cultuavam dois deuses. Um deles era mau, responsável por toda desordem e maldade do planeta. Jesus era considerado o deus bom, nascido com o objetivo de libertar a humanidade do deus do mau.
     Os seguidores de Tomé, os tomasinos, formavam uma comunidade à parte. Rejeitavam a hierarquia e também acreditavam na salvação por meio do conhecimento.
     Os seguidores de Pedro e Paulo tinham fortes comunidades em Roma, capital do Império Romano. Esse Cristianismo era mais organizado e tinha uma hierarquia própria.
     O chamado Cristianismo apostólico se baseava nas narrativas dos primeiros discípulos de Jesus, entendendo que o Messias havia morrido na cruz para salvar a humanidade. Afirmavam que cabia aos seus seguidores a missão de espalhar sua mensagem pelo mundo.
     Os gnósticos tinham algumas crenças semelhantes às dos marcionistas, pois acreditavam que o mundo tinha sido criado por um deus imperfeito. Assim, eles acreditavam que não havia motivo para se ter culpa pelos males do planeta. Para eles, havia o Deus bom, que havia dado a cada ser humano uma centelha divina que o capacitava a conhecer a verdade e a abandonar a imperfeição. O acúmulo de conhecimento era o caminho para a libertação do mundo mau. Adotavam uma vida ascética, negavam a matéria e acreditavam que o conhecimento era o caminho para a salvação.
     Algumas facções também defendiam que Deus tinha um princípio masculino e outro feminino. Muitas mulheres desses grupos atuavam como mestras, líderes e profetisas - uma ideia ainda hoje revolucionária para a Igreja.
     Alguns bispos tentaram organizar as escrituras, aparar as diferenças e chegar a uma versão oficial da crença em Jesus. Porém, as disputas de poder sempre dificultaram essa unificação.
     Em 313, o imperador romano Constantino Magno enfrentava problemas com o povo e necessitava de uma nova religião para controlar as massas. Aproveitando-se do grande avanço da "religião do carpinteiro", o Cristianismo, apoderou-se dela e a modificou conforme seus interesses.
     Constantino é considerado o primeiro imperador cristão, mas na verdade o seu Cristianismo tinha apenas motivação política. A Igreja passou a ser parte do sistema político que governava.
     O Concílio de Niceia, em 325, foi presidido por Constantino e era formado por bispos nomeados por ele e por líderes religiosos de diversas comunidades. O Concílio consagrou a designação "católica" à igreja organizada pelo imperador.
     A versão do Cristianismo foi organizada por concílios da Igreja cujos membros provavelmente sofreram pressão de Constantino e de diversas facções políticas em suas atividades. Toda uma estrutura teológica foi montada pata atender às pretenções absolutistas da casta sacerdotal dominante, que dizia aos seus fiéis: "Fora da Igreja não há salvação".
     Os diversos Concílios selecionaram conteúdos da Bíblia, determinaram doutrinas e dogmas da Igreja - como por exemplo, a Santíssima Trindade, a divindade de Jesus, a virgindade de de Maria (mãe de Jesus). Foi nesse contexto que os Evangelhos de João, Marcos, Lucas e Mateus foram considerados canônicos (o termo canônico significa aquele que entrou na lista dos escolhidos).
     A palavra "evangelho" tem origem grega e significa "boa nova", que no caso seria a notícia da chegada do Messias, Jesus. Os livros que não pertenciam ao cânone(a lista dos escolhidos), foram considerados heréticos e grande parte foi destruída.
     No início do Cristianismo, os evangelhos eram 315, o que demonstra as várias interpretações locais sobre Jesus. Os textos proibidos foram os gnósticos, os que não davam importância à crucificação e os evangelhos tomasinos, por pregarem a busca individual pela salvação.
     Após a organização da Igreja em Niceia, teve início a perseguição a todos os que discordavam da recém-formulada Escritura Sagrada. Os gnósticos, assim como os docetas, ebionitas e ofitas, foram acusados de heresia. Os que insistiam em desrespeitar o cânone eram punidos com a excomunhão ou a morte.(Compilação da Revista Arquivos Secretos Especial, por Ana Elizabeth C. da Costa)