O manuscrito foi encontrado por um agricultor em meados da década de 1970, em El Minta, vilarejo desértico ao sul do Cairo.
O homem, vasculhando túmulos antigos, encontrou uma caixa de pedra com livros e a vendeu por um preço muito baixo.
Em 1978, não se sabe exatamente de que forma, a preciosidade se encontrava em mãos do mercador egípcio de antiguidades, Hana Airian. Agindo no mercado negro, ele ofereceu os manuscritos a Nikolas Koutoulakis, um grego que morava na Suíça, que também não tinha boa fama. Durante as negociações, os papiros desapareceram e reapareceram mais tarde na residência de Nikolas.
No início da década de 1980, durante uma discussão com a namorada, Koutoulakis acabou rasgando o manuscrito, pois durante a briga ela tentou se apoderar dos documentos.
O mercador Hana conseguiu reaver o documento e passou a procurar por clientes mais honestos. Ele pedia por eles o valor de 3 milhões de dólares. Não encontrando comprador, deixou os manuscritos num cofre do Citibank, Long Island. Após 16 anos, quando foram retirados do local, eles praticamente tinham virado pó.
Em 2000, Frieda Nussberger-Tchacos, negociante de antiguidades, adquiriu o antigo códice, que incluía o Evangelho de Judas, quando ele já estava à venda há quase 20 anos. Rodolphe Kasser, especialista suíço em textos coptas antigos, ao examinar os manuscritos afirmou que nunca tinha visto um documento em piores condições de conservação.
Devido às precárias condições, Frieda decidiu entregá-los à Maecenas Foundation for Ancient Art, que após recuperar e traduzi-los, os entregaria ao Museu Copta do Cairo.
A National Geographic e o Instituto Waitt decidiram colaborar com o Maecenas Foundation em todo o processo de recuperação do códice. Os testes de carbono realizado no material demonstraram que foi escrito entre 220 e 340. Trata-se de uma cópia em copta dos textos originais escritos em grego durante o século 2. Das 120 páginas, sobraram apenas 62, sendo 26 do Evangelho de Judas.
O conteúdo e o estilo linguístico do códice fornecem provas de sua autenticidade. Eles se assemelham a conceitos encontrados na Biblioteca de Nag Hammadi, no Egito, em 1945. O códice, segundo o dr. Stephen Emmel, especialista em paleografia, foi escrito por um escriba profissional: "Esse tipo de escrita lembra muitos os códices de Nag Hammadi. Não é uma caligrafia idêntica a nenhum deles; mas é um tipo semelhante de escrita. Não reflete apenas a visão gnóstica do mundo".
Desde os primeiros séculos da era cristã, o nome de Judas se tornou sinônimo de traição. Entretanto, o documento encontrado demonstra que o único apóstolo que realmente compreendeu Jesus foi Judas.
Sobre sua vida pessoal, pouco se sabe. O seu sobrenome, Iscariotes, um lugarejo perto de Hebron, no sul da Judeia. Até então, o que se conhecia de Judas era por meio dos evangelhos canônicos. O documento narra os acontecimentos que anteciparam a Páscoa, nos dias anteriores à morte de Jesus. O conteúdo revela que Judas era o discípulo mais próximo de Jesus e que era o único que compreendia a essência de seus ensinamentos, as suas palavras.
No manuscrito, há a narração de uma história que retrata essa aproximação. Jesus desafiou os apóstolos, acusando-os, em tom de zombaria, de não rezarem por vontade própria, mas apenas para agradecerem a Deus. Os apóstolos, segundo o manuscrito, ficaram enfurecidos e blasfemaram contra o líder em seus corações. Judas foi o único a compreender as palavras de Jesus. O Mestre então lhe propôs que se afastasse dos outros e afirmou que lhe ensinaria os mistérios do Reino, pois acreditava que ele os entenderia.
Segundo os textos, Jesus revelou a Judas a existência de um mundo superior que era habitado por Deus, "um espírito que nunca foi chamado de nenhum nome". Foi desse espírito que teve origem uma linhagem de anjos, sendo que um deles havia criado a Terra. Jesus dizia que o Deus adorado pelos judeus era um Deus inferior, pois em sua criação aprisionava o espírito humano. O Mestre dizia que a salvação e o encontro com o Deus bom só aconteceriam quando o homem buscasse sua porção divina interior. Somente assim ele conseguiria a libertação.
Jesus revela também que Judas seria superior a todos, porque "sacrificará o homem que me veste".
Judas deveria matar a parte física de Jesus para que ele se livrasse do corpo que aprisionava seu espírito. Judas cumpriu à risca as ordens do mestre. Procurou pelos sacerdotes e denunciou Jesus. Em troca, recebeu algumas moedas. O evangelho apócrifo de Judas termina nesse trecho da história.
Os evangelhos canônicos, o Atos dos Apóstolos e até mesmo os textos apócrifos contam uma história diferente sobre Judas. O Evangelho de Marcos, por exemplo, escrito por volta de 65, cita Judas três vezes e afirma que ele foi o responsável pela traição, porém afirma que a recompensa recebida foi oferecida pelos sacerdotes. Lucas diz que Judas foi dominado por Satanás e traiu Jesus por esse motivo. O Evangelho de Mateus associa a delação de Judas à sua ganância, pois teria recebido 30 moedas de prata, o valor aquivalente a um escravo na época. Mateus ainda relata o arrependimento de Judas, que se enforcou. João justifica a traição de Judas acreditando que ele teria sido possuído por um demônio, e também relata a sua ganância.
Em textos considerados apócrifos, a justificativa é associada ao descontentamento de Judas diante do Mestre. Ele acreditava que Jesus deveria lutar com armas contra os romanos. Há ainda textos segundo os quais Judas acreditava que o povo de Jerusalém se revoltaria com a prisão de Jesus e o libertaria, colocando-o no trono.
Para muitos estudiosos, como Marvin Meyer - coordenador de tradução do Evangelho de Judas e especialista em Bíblia da Universidade Chapman, EUA -, o principal mérito do Evangelho de Judas é demonstrar que existia uma diversidade de opiniões no início do Cristianismo. Como se sabe, os evangelhos não foram escritos pelos próprios apóstolos, mas por seus seguidores. Acredita-se que o Evangelho de Judas foi escrito por alguma comunidade gnóstica, um dos ramos do Cristianismo primitivo. Os gnósticos acreditavam que os homens se libertariam da prisão do corpo físico quando conhecessem a parcela divina que tinham dentro de si.
Meyer ainda observa que o texto foi escrito por alguém que tinha reverência por Jesus, que aparece como uma figura menos sofredora. No texto, ele ri quatro vezes e demonstra ter humor com a condição humana, em todas as fraquezas e singularidades de sua vida na Terra.
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