sexta-feira, 16 de julho de 2010

Evangelho de Madalena

     O Evangelho de Maria Madalena pertence ao Codex Akhmin, também chamado Papyrus Berolinensis 8502. Foi descoberto na cidade de Akhmin, no Egito, em 1896, e adquirido no Cairo pelo pesquisador alemão Carl Reinhardt.
     Originalmente, tinha 19 páginas em papiro, escrito em dialeto copta egípcio. O texto estava incompleto; faltam as páginas de 1 a 6, e de 11 a 14. Em 1955, uma tradução foi publicada pela primeira vez.
Entre 1897 e 1906, dois outros fragmentos desse evangelho foram encontrados pelos ingleses Bernard Pyne Granfell e Arthur Surridge Hunt. Escritos em grego, são denominados Papyrus Oxyrhynchus e o Papyrus Ryland 463. A versão desses novos fragmentos, que complementam e confirmam o texto do Codex Akhmin, foi publicada em 1983.
     O Evangelho de Madalena é considerado um dos mais importantes evangelhos apócrifos, pois contribuiu muito para a compreensão das origens do Cristianismo. O manuscrito em grego foi escrito por volta do ano 150, e a sua cópia em copta na século 5.
     Acredita-se que o Evangelho de Maria Madalena é fruto da comunidade que se formou sob sua liderança e que, de certa forma, foi uma reação contra a institucionalização do Cristianismo na linha masculina e hierárquica. Jesus sempre esteve próximo das mulheres  e dos excluídos das sociedades, como os pobres, pecadores e enfermos. Os evangelhos canônicos não retrataram a liderança de mulheres apóstolas e discípulas de Jesus, como Maria Madalena.
     Maria Madalena nasceu na cidade de Magdala, na Galileia. Era uma mulher de posses que, após uma experiência religiosa, tornou-se discípula de Jesus, acompanhando-o em suas viagens, junto a outros discípulos, homens e mulheres.
     Nos evangelhos apócrifos, Filipe a apresenta como companheira de Cristo. No Evangelho de Tomé, é a consorte do Senhor e sua interlocutora mais importante, e na Pistis Shofia, tratado gnóstico do século 3, a maior parte das perguntas é feita por Maria Madalena.
     Nos Evangelhos canônicos e apócrifos, ela sempre é identificada com Jesus. A sua morte não é relatada nos apócrifos, e há quem diga que ela teria fugido de Jerusalém no ano 42, devido à perseguição dos romanos aos cristãos. Daí a tradição que ela teria se tornado eremita.
     Ela é a figura feminina mais citada no Novo Testamento e personagem importante na cena da ressurreição de Jesus. Na Bíblia, as imagens frequentemente associadas a Maria Madalena são a da pecadora que unge os pés de Jesus (Lc 36:8), a da mulher que derrama sobre sua cabeça um precioso bálsamo (Mt 26:6-7) e da esposa que está prestes a ser apedrejada por adultério e é salva por Jesus (Jo 8:3-12).
     Na época, o termo "pecadora" para os fariseus podia significar tanto uma mulher de costumes depravados quanto uma mulher que não observava os preceitos dos fariseus. No livro hebraico, o Talmude, uma pecadora podia ser uma mulher que dava de comer ao marido com um alimento sobre o qual não havia dado o dízimo.
     Em 591, o papa Gregório fez um sermão na Páscoa (homilia 33), no qual ele fundiu Maria Madalena com a pecadora anônima da cidade. De acordo com os estudiosos da atualidade, o papa desferiu um golpe praticamente fatal, numa época em que as mulheres eram cada vez mais marginalizadas, por serem julgadas como uma ameaça à verdadeira fé.
     "Aquela a quem Lucas chama de mulher pecadora, a quem João chama de Maria Madalena, nós acreditamos ser a Maria da qual sete demônios foram expulsos, de acordo com Marcos. E o que significam os demônios, senão os vícios?". O papa Gregório, entre diversas colocações negativas sobre Maria Madalena, afirmou que o bálsamo usado pela mulher era o mesmo que usava para perfumar sua carne para atos proibidos.
     O padre Richard Mcbrian da Notre Dame University afirma que não existem fatos que provem que Maria Madalena fosse prostituta. Naquela época, as doenças comuns entre a população eram atribuídas a demônios. O estudioso acredita que os "demônios" poderiam ser doenças, e a expressão "expulsar os demônios" pode ser considerado o mesmo que "curar".
     Apesar de ter sido rotulada como prostituta pela Igreja ocidental no século 6, existem provas de que Maria Madalena era uma pessoa respeitada pelos primeiros líderes masculinos da Igreja. O bispo de Roma, Hipólito, naascido em 170, afirmava que ela era o apóstolo para os apóstolos.
     Por outro lado, por muito tempo a Igreja oriental aclamou a importância de Maria Madalena, dando importância ao papel da mulher em suas comunidades. Diversos teólogos orientais viam-na como uma mulher honrada, digna de destaque em seu papel dentro do Cristianismo. Dentre eles, vale a pena citar Cirilo de Alexandria, e Proclus, patriarca de Constantinopla, por volte de 444.
     O Evangelho de Maria Madalena é formado por ensinamentos de Jesus repassados por ela aos apóstolos. A primeira parte descreve o diálogo de Jesus já ressuscitado com seus discípulos. Ele responde sobre questões relacionadas à matéria e ao pecado. Antes de partir, o Mestre aconselha-os a se protegerem de qualquer um que os tente a desviar do caminho, e pede que saiam a pregar o Evangelho. Após a sua partida, os discípulos, repletos de dúvidas e aflitos, são acalmados por Madalena.
    A segunda parte do texto narra a descrição de Madalena aos discípulos de uma revelação que lhe fora transmitida por Jesus. A pedido de Pedro, ela narra as coisas que estavam ocultas. Nesse trecho do Evangelho, faltam quatro páginas.
     As páginas seguintes descrevem a revelação que teve, em forma de diálogo. Jesus revela que a alma vê por meio da mente, que está entre a alma e o espírito. O texto é interrompido e retorna na página 15. Maria descreve que Jesus lhe ensinou que, durante a ascensão, a alma atravessa quatro poderes. Depois que Madalena termina a descrição dos ensinamentos, André e, em seguida , Pedro, desafiam-na argumentando que os ensinamentos eram estranhos, duvidando que Jesus tivesse feito revelações daquele porte para uma mulher. Madalena se comoveu diante das dúvidas e lhes perguntou se julgavam que ela estava mentindo.
     Na ocasião, Levi interrompeu e disse a Pedro que se Jesus a havia feito digna, quem era ele para rejeitá-la. Depois que Levi disse essas palavras, eles imediatamente começaram a sair para anunciar e pregar a palavra do Mestre.
     A oposião de alguns apóstolos a Maria, como André e Pedro, é considerada como um reflexo dos confrontos existentes na Igreja do século 2. Significava o sinal de que a Igreja oficial se oporia às revelações esotéricas e à liderança da mulher.
     Margareth Starbird, em sua obra Maria Madalena, a Noiva no Exílo (Ed. Cultrix), afirma que "a rivalidade entre o modo de ser de Pedro e Maria Madalena tem sua origem na psicologia do masculino e feminino (...). Pedro, a Pedra, representa a versão ortodoxa do Cristianismo e tem garantida a passagem para o Paraíso pela mediação de sacerdotes hierárquicos, com autoridade absoluta sobre suas vidas e suas almas, a quem eles devem honrar e obedecer. Maria é o caminho do coração - o relacionamento apaixonado com o Divino e com a criação".
  

Pistis Sophia

     O texto original do Pistis Sophia, escrito em grego, foi guardado numa tradução em copta, dialeto egípcio, feita provavelmente entre o s séculos 3 e 4 de nossa era.
     O códice foi levado para a Inglaterra em 1772, por um médico, dr. Anthony Askew, que colecionava manuscritos antigos. Mais tarde, o documento, conhecido como Códice Askew, foi adquirido pelo Museu Britânico. O seu conteúdo foi traduzido para o latim por volta do século 19 e, mais tarde, para o francês, alemão e inglês.
     O título Pistis Sophia é traduzido geralmente como "sabedoria da Fé". O manuscrito, numa versão mais simplificada, também foi encontrado em um papiro em Nag Hammadi, em 1945.
     O texto afirma que Jesus, após a ressurreição, permaneceu no mundo por 11 anos, instruindo seus discípulos até o "primeiro nível do mistério". No início, é traçado um paralelo entre a morte e ressurreição de Jesus, com a descrição da descida e da ascensão da alma. Há ainda a descrição de figuras importantes na cosmologia gnóstica e a lista de 32 desejos carnais que devem ser superados para se alcançar a salvação.
     No início do texto, Jesus se encontra no Monte das Oliveiras com seus discípulos. Depois de algum tempo, ele é elevado ao alto em meio a relâmpagos e trovões. Após 30 horas, Jesus retorna envolvido em três vestes de luz e anuncia: "A partir deste dia, vou falar-vos abertamente, desde o princípio da Verdade até o seu término(Plenitude); e vou falar, face a face, sem (usar) parábolas. A partir deste momento não vos esconderei nada do (mistério) alto e do lugar da Verdade. Pois, autoridade me foi dada, por intermédio do Inefável e do Primeiro Mistério de todos os mistérios, para falar-vos, desde o Princípio até a Plenitude (Pleroma), tanto de dentro para fora do exterior para o interior. Ouvi, portanto, para que possa dizer todas as coisas"(capítulo 6, Pistis Sophia).
     Para muitos estudiosos, o conteúdo do Pistis Sophia possui uma linguagem impenetrável devido ao seu simbolismo. O texto tem sido analisado por diversas tradições. O seu simbolismo é engenhoso em sua simplicidade. As entidades da narração representam os princípios do homem, revelando dessa forma o sistema psicológico subjacente aos ensinamentos do Mestre. A gematri(correspondência numérica das palavras) também é empregada no texto, revelando significados importantes e profundos.
(Compilação feita da Revista Arquios Secretos Especial).

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Evangelho de Tomé

     O Evangelho segundo Tomé, do apóstolo que precisava "ver para crer", é o mais polêmico do acervo de Nag Hammadi. Fragmentos de três papiros gregos - encontrados em um lixo em Oxirrinco, atual Behnesa, no Egito -, publicados em 1897, contêm sentenças atribuídas a Jesus quase idênticas às encontradas no Evangelho de Tomé de Nag Hammadi. Esses papiros eram representantes de edições gregas do Evangelho de Tomé.
     Por algum tempo, acreditou-se que os escritos descobertos eram de autoria  de um maniqueu, de um seguidor do místico gnóstico Mani. Atualmente, é consenso que o texto de Nag Hammedi foi escrito antes do movimento maniqueísta ter surgido.
     O texto, em copta, teria sido escrito ou traduzido em Edessa, sob a influência de Tomé, daí o nome Evangelho de Tomé. Ele teria sido composto durante o século 2 e sua redação final teria sido feita no final do século 4.
     Tomé, conhecido como Dídimo Tomé, teria parentesco com Jesus. Pregou a sua palavra na Índia e morreu a golpes de espada por quatro soldados, a mando de um rei.
     Segundo Luigi Moraldi, em sua obra Evangelhos Apócrifos (Paulus Ed.), Tomé era considerado depositário de secredos e revelações particulares referentes a Jesus. "Os escritos apócrifos atribuídos a ele também têm essa marca; daí o sentido velado e muitas vezes chocante que o distingue".
     Moraldi relata que em Atos, Tomé afirma: "Tu (Senhor) desvendas segredos escondidos e revelas palavras misteriosas"; e ainda, "Jesus, mistério escondido que me foi revelado, a mim, a quem revelaste teus mistérios mais que a todos os meus companheiros, a mim disseste palavras que me queimam, e que não posso manifestar".
     Ao contrário dos outros evangelhos conhecidos, quer sejam canônicos ou apócrifos, o Evangelho de Tomé não expõe narrativas sobre a vida de Jesus, mas atém-se às sentenças que teriam sido proferidas por ele a seus discípulos.
     O Evangelho de Tomé é formado por 114 sentenças independentes proferidas por Jesus. Os ensinamentos de Jesus descritos têm como objetivo levar ao homem o ideal da salvação gnóstica. Contém parábolas sem alegorias e ensinamentos sobre o reino de Deus e o comportamento do ser humano. O conteúdo ainda relata os caminhos para a busca de si e as palavras que não devem ser anunciadas aos profanos. O masculino e o feminino são convocados a viverem de forma integrada.
     O Evangelho de Tomé tem uma relação estreita com o de João, considerado gnóstico, assim como com o de Maria Madalena. Esses três evangelhos tinham como princípio a união do masculino e do feminino em cada ser humano.
     Na visão gnóstica de Tomé, Jesus era um sábio que caminhava com seus discípulos e que lhes ensinava palavras portadoras de vida. Essas palavras levavam o discípulo a tomar consciência de si mesmo e a caminhar em busca da plena realização de seu ser.
     Os evangelhos de Tomé e João propagavam o conhecimento da Palavra, Jesus, o Pai e a verdade, para se libertar da morte. Reconheciam que todo homem tem uma cegueira interna que o impede de conhecer a verdade.
     As comunidades de Tomé sabiam que compreender as palavras de Jesus significava interpretá-las de forma correta para tornar-se um seguidor fiel das palavras de vida. Dessa forma, a morte não teria lugar no cotidiano de uma vida mortal. As parábolas de Tomé revelam Jesus mais próximo dos camponeses e dos excluídos do sistema econômico romano, diferente dos evangelhos canônicos.
     O estudioso e autor Marvin Meyer considera o Evangelho de Tomé como um evangelho de sabedoria, no qual Jesus emprega a técnica também usada nos evangelhos canônicos, em que não define tudo, mas que se deixam histórias inacabadas ou com uma pergunta no ar. Assim, ele é um evangelho interativo, pois tem como objetivo provocar a reflexão e a interpretação.
     Ele encerra seus escritos falando sobre Pedro e Maria Madalena: "Simão Pedro disse: Seja Maria Madalena afastada de nós, porque as mulheres não são dignas da vida. Respondeu Jesus: Eis que eu atrairei, para que ela se torne homem, de modo que também ela venha a ser um espírito vivente, semelhante a vós homens. Porque toda a mulher que se fizer homem entrará no Reino dos Céus".(Tomé 114)
     Para o pesquisador Frei Jacir de Freitas Faria, em sua obra As Origens Apócrifas do Cristianismo: "esse texto deve ser entendido em sintonia com outras passagens do Evangelho de Maria Madalena e do tratado gnóstico Pistis Sophia, os quais descrevem a postura misógina de Pedro em relação às mulheres. Essa aversão de Pedro em relação às mulheres é o reflexo da disputa de liderança entre os primeiros cristãos. E nesse campo era normal que as mulheres não levassem a melhor, pois eram consideradas incapazes de aprender ensinamentos profundos. O grande pecado de Maria Madalena foi saber demais".(Compilação da Revista Arquivos Secretos Especial, por Ana Elizabeth Cavalcanti da Costa)

Trechos do Evangelho de Tomé

5.Conhece o que está ante os teus olhos - e o que te é oculto te será revelado; porque nada é oculto que não seja manifestado.
20.Disseram os discípulos a Jesus: Dize-nos, a que se assemelha o Reino dos Céus?
Respondeu-lhes ele: Ele é semelhante a um grão de mostarda, que é menor que todas as sementes; mas, quando cai em terra, que o homem trabalha, produz um broto e se transforma num abrigo para as aves do céu.
22.Jesus viu crianças de peito mamarem. E ele disse a seus discípulos. Essas crianças de peito se parecem com aqueles que entram no Reino. Perguntaram-lhe eles: Se formos pequenos, entraremos no Reino? Respondeu-lhes Jesus: Se reduzirdes dois a um, se fizerdes o interior como o exterior, se fizerdes o de cima como o de baixo, se fizerdes um o masculino e o feminino, de maneira que o masculino não seja mais masculino e o feminino não seja mais feminino - então entrareis no Reino.
47.Disse Jesus: O homem não pode montar em dois cavalos, nem pode retesar dois arcos. O servo não pode servir a dois senhores, pois ele honra um e ofende o outro. Nenhum homem que bebeu vinho velho deseja beber vinho novo. Não se coloca vinho novo em odres velhos, com medo que se rompam; vinho novo se coloca em odres novos, para que não se perca. Não se cose um remendo velho em roupa nova, para não causar rasgão.
57.Jesus disse: O Reino do Pai é semelhante a um homem que semeou boa semente em seu campo. De noite, porém, veio o inimigo e semeou erva má no meio da semente boa. O senhor do campo não permitiu que se arrancasse a erva má, para evitar que, arrancando esta, também fosse arrancada a erva boa. No dia da colheita se manifestará a erva má. Então será ela arrancada e queimada.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Evangelho de Filipe

      Filipe era natural da aldeia de Betsaida, na Galileia. Após a ascensão de Jesus, ele pregou sua palavra durante 20 anos na Cítia. Morreu com 87 anos, em Hierápolis, onde foi sepultado.
     O Evangelho de Filipe é considerado um livro apócrifo. Descoberto em Nag Hammadi, o texto foi redigido entre 180 e 350, provavelmente por alguns de seus seguidores. Ele é formado por uma série de declarações de Jesus, em diversos estilos literários (parábolas, provérbios, aforismos, etc). O texto em copta é uma cópia de um original em grego.
     A obra contém provérbios breves e enigmáticos de Jesus, e são mais facilmente interpretados sob o ponto de vista gnóstico. Eles são identificados pela forma como os introduz ("ele disse", "O senhor disse", "o Salvador disse").
     O Evangelho de Filipe se tornou especialmente famoso nos últimos tempos por ter sido citado no best-seller de Dan Brown, O Código da Vinci. Na obra, o autor faz referência a uma citação que consta no Evangelho de Filipe e que pode significar a união marital entre Jesus e Maria Madalena: "E a companheira do Salvador é Maria Madalena. Mas Cristo a amava mais do que a todos os discípulos e costumava beijá-la frequentemente na boca. Os demais discípulos se ofendiam com isso e expressavam desagrado".
     Beijar, nashak, em hebraico, significa respirar junto, compartilhar o mesmo fôlego.
     Jean Yves Leloup, filósofo, teólogo e sacerdote ortodoxo foi o tradutor de muitos evangelhos apócrifos, inclusive o de Filipe. O estudioso acredita que os textos encontrados em Nag hammadi foram enterrados ali por revelarem a intimidade física entre Maria Madalena e Jesus. Para ele, o Evangelho de Filipe não trata apenas da santidade da comunhão espiritual, mas expressa também a natureza sagrada da união física de um homem e uma mulher, o mistério da câmara nupcial.
   
     Trechos do Evangelho de Filipe

     - Luz e treva, vida e morte, direita e esquerda são irmãos entre si. São inseparáveis. Por isto, nem os bons são bons, nem os maus são maus, nem a vida é vida, nem a morte é morte. Assim é que cada um se dissolverá em sua origem primordial. Mas os que estão exaltados acima do mundo são indissolúveis, eternos.
     - Jesus pegou-os todos de surpresa, porque Ele não apareceu como era, mas de maneira como (seriam) capazes de vê-lo. Apareceu aos grandes como grande, aos pequenos como pequeno, aos anjos como anjo, e aos homens como homens. Por isto sua palavra ocultou-se de todos. Alguns realmente o viram, pensando que estavam vendo a si mesmos. Mas quando apareceu gloriosamente aos discípulos sobre a montanha, não era pequenino. Ele se tornou grande, mas fez com que os discípulos ficassem grandes, para que pudessem percebê-lo em sua grandeza.

  

Gnosticismo

     O gnosticismo foi um movimento religioso que, nos primeiros séculos do Cristianismo, desdobrou-se em diversas seitas, que partilhavam uma concepção de gnose em comum, combatida e rejeitada pela Igreja.
     Em grego, gnosis significa "conhecimento", e para os gnósticos era o mesmo que uma compreensão espiritual que só poderia ser obtida por meio de um autoexame constante, geralmente acompanhado de sonhos ou visões, na maior parte das vezes longos e estranhos. A gnose designava um conhecimento profundo e superior do mundo e do homem.
     Segundo a obra de Frei Jacir de Freitas Faria, As Origens Apócrifas do Cristianismo(Paulinas): "O gnosticismo foi um movimento de resistência aos cristãos que se organizavam em uma instituição eclesial. Estaarvorava o poder divino para direcionar o movimento de Jesus. Um gnóstico, por acreditar na presença divina em si mesmo, não poderia, é claro, acreditar em uma instituição humana, terrena. Assim os gnósticos tinham como objetivo, entre outros, ser uma alternativa à institucionalização do Cristianismo. Para um gnóstico, não havia necessidade da mediação de uma instituição eclesiástica para entrar em contato com Deus. Cada fiel poderia comunicar-se diretamente com ele. O primado de
Pedro foi, por isso, contestado e não aceito por eles. O Primeiro Concílio de Constantino(381 E.C.) condenou o gnosticismo como movimento herético).

Os primeiros cristãos

     Na obra A Verdadeira História de Maria Madalena (Ediouro), de Dan Burstein e Arne J. de Keijzer, o pesquisador e autor Mervin Meyer diz que havia diversidade entre os primeiros cristãos, diferentes maneiras de entender o que as "boas novas de Jesus" realmente acarretavam, e o que significava sequi-lo. Algumas dessas diferenças transformaram-se em polêmicas, nem sempre de natureza afável ou gentil.
     Nos primeiros séculos do Cristianismo, as comunidades cristãs tinham diversas origens e eram organizadas de formas diferentes. Havia uma tradição oral diversificada que incluía apresentações diferentes dos evangelhos, dos atos dos apóstolos, assim como das cartas apostólicas e apocalipses. As diferenças seguiam as mais variadas formas de pensar e de viver de cada comunidade cristã.
    Entre os primeiros cristãos, havia os ebionitas, que se consideravam judeus e tinham Jesus como o salvador exclusivo do povo judeu. Defendiam a ideia de que Jesus tinha nascido de forma natural e que, depois de batizado, foi adotado por Deus.
     Para os docetas, Jesus possuía um corpo etéreo, e eles acreditavam que não havia nascido, morrido na cruz e muito menos resuscitado. Além disso, não o consideravam filho de Maria.
     Os ofitas acreditavam que Caim era o representante espiritual mais elevado. Para eles, a morte de Jesus, embora tenha sido um crime, fora um evento necessário para a salvação da humanidade.
     Havia também os marcionistas, que cultuavam dois deuses. Um deles era mau, responsável por toda desordem e maldade do planeta. Jesus era considerado o deus bom, nascido com o objetivo de libertar a humanidade do deus do mau.
     Os seguidores de Tomé, os tomasinos, formavam uma comunidade à parte. Rejeitavam a hierarquia e também acreditavam na salvação por meio do conhecimento.
     Os seguidores de Pedro e Paulo tinham fortes comunidades em Roma, capital do Império Romano. Esse Cristianismo era mais organizado e tinha uma hierarquia própria.
     O chamado Cristianismo apostólico se baseava nas narrativas dos primeiros discípulos de Jesus, entendendo que o Messias havia morrido na cruz para salvar a humanidade. Afirmavam que cabia aos seus seguidores a missão de espalhar sua mensagem pelo mundo.
     Os gnósticos tinham algumas crenças semelhantes às dos marcionistas, pois acreditavam que o mundo tinha sido criado por um deus imperfeito. Assim, eles acreditavam que não havia motivo para se ter culpa pelos males do planeta. Para eles, havia o Deus bom, que havia dado a cada ser humano uma centelha divina que o capacitava a conhecer a verdade e a abandonar a imperfeição. O acúmulo de conhecimento era o caminho para a libertação do mundo mau. Adotavam uma vida ascética, negavam a matéria e acreditavam que o conhecimento era o caminho para a salvação.
     Algumas facções também defendiam que Deus tinha um princípio masculino e outro feminino. Muitas mulheres desses grupos atuavam como mestras, líderes e profetisas - uma ideia ainda hoje revolucionária para a Igreja.
     Alguns bispos tentaram organizar as escrituras, aparar as diferenças e chegar a uma versão oficial da crença em Jesus. Porém, as disputas de poder sempre dificultaram essa unificação.
     Em 313, o imperador romano Constantino Magno enfrentava problemas com o povo e necessitava de uma nova religião para controlar as massas. Aproveitando-se do grande avanço da "religião do carpinteiro", o Cristianismo, apoderou-se dela e a modificou conforme seus interesses.
     Constantino é considerado o primeiro imperador cristão, mas na verdade o seu Cristianismo tinha apenas motivação política. A Igreja passou a ser parte do sistema político que governava.
     O Concílio de Niceia, em 325, foi presidido por Constantino e era formado por bispos nomeados por ele e por líderes religiosos de diversas comunidades. O Concílio consagrou a designação "católica" à igreja organizada pelo imperador.
     A versão do Cristianismo foi organizada por concílios da Igreja cujos membros provavelmente sofreram pressão de Constantino e de diversas facções políticas em suas atividades. Toda uma estrutura teológica foi montada pata atender às pretenções absolutistas da casta sacerdotal dominante, que dizia aos seus fiéis: "Fora da Igreja não há salvação".
     Os diversos Concílios selecionaram conteúdos da Bíblia, determinaram doutrinas e dogmas da Igreja - como por exemplo, a Santíssima Trindade, a divindade de Jesus, a virgindade de de Maria (mãe de Jesus). Foi nesse contexto que os Evangelhos de João, Marcos, Lucas e Mateus foram considerados canônicos (o termo canônico significa aquele que entrou na lista dos escolhidos).
     A palavra "evangelho" tem origem grega e significa "boa nova", que no caso seria a notícia da chegada do Messias, Jesus. Os livros que não pertenciam ao cânone(a lista dos escolhidos), foram considerados heréticos e grande parte foi destruída.
     No início do Cristianismo, os evangelhos eram 315, o que demonstra as várias interpretações locais sobre Jesus. Os textos proibidos foram os gnósticos, os que não davam importância à crucificação e os evangelhos tomasinos, por pregarem a busca individual pela salvação.
     Após a organização da Igreja em Niceia, teve início a perseguição a todos os que discordavam da recém-formulada Escritura Sagrada. Os gnósticos, assim como os docetas, ebionitas e ofitas, foram acusados de heresia. Os que insistiam em desrespeitar o cânone eram punidos com a excomunhão ou a morte.(Compilação da Revista Arquivos Secretos Especial, por Ana Elizabeth C. da Costa)

quarta-feira, 23 de junho de 2010

É possível um crente ser possuído por espíritos?

     Muitos que contestam isso tendem a ver a possessão demoníaca como a do gadareno (Lc 8), controlado por Satanás, andando nu e enfurecido por ser habitação de uma legião de demônios.
     Talvez devêssemos formular a pergunta desta maneira: pode o Espírito Santo e um espírito mau acupar o mesmo ser humano ao mesmo tempo? O deus deste século ocupa certo espaço em nossa atmosfera, como também o Espírito Santo. E Satanás, na verdade, tem acesso à presença de nosso Pai, no céu. Portanto, não devíamos pensar que é impossível haver influência demoníaca controlando em parte a vida de alguém em quem habita o Espírito Santo. Se lhe parece difícil engolir esta "pílula", se lhe parece difícil crer nesta possibilidade, convido-o a ler Demon Possession and the Christian (Possessão Demoníaca e o crente), de C. Fred Dickson.
     No Novo Testamento grego não existe a expressão "possuído pelo demônio". Aparece ali apenas uma palavra - daimonizomai (um verbo), ou daimonizomenos( um particípio) - que seria bem transliterado "endemoniado"(Mt 4:24;9:32;15:22; Mc 5:15). Outra expressão do conceito de a pessoa estar endemoniada é a frase echein daimonion, que significa "ter demônio". Os líderes religiosos utilizaram essa frase para acusar tanto João Batista como Jesus de terem demônio (Lc 7:33; Jo 7:20).
     É crucial que os crentes entendam sua vulnerabilidade à influência demoníaca. Os que afirmam que o demônio não pode controlar área alguma da vida do crente deixa-nos apenas dois possíveis culpados dos problemas que enfrentamos: nós próprios, ou Deus.
     Na realidade estamos engajados numa guerra, cujo desfecho nos favorece, contra os principados e potestades do já  condenado reino das trevas. Entretanto, as mentiras satânicas podem conseguir certo controle sobre nós, se o permitirmos.
     Aqui vão algumas indicações das Escrituras de que os crentes podem perder o controle ou ficar sob a escravidão satânica:
     Lucas 13:10-18. Enquanto Jesus ensinava na sinagoga, "veio ali uma mulher possessa de um espírito de enfermidade, havia dezoito anos; andava ela encurvada, sem de modo algum poder endireitar-se" (v. 11). O versículo 16 declara que esta mulher não era incrédula. Era uma "filha de Abraão"(v. 16), uma mulher temente a Deus, cheia de fé, portadora de um problema espiritual. Tão logo Jesus a libertou das cadeias, seu problema física desapareceu.
     Observe que a mulher não estava protegida contra o controle demoníaco pelo fato de estar numa sinagoga. Nem as paredes de uma sinagoga, nem as de uma igreja constituem santuário protetor contra a influência demoníaca. Paredes de concreto não barreiras contra Satanás.
     Admitamos que esse incidente ocorreu antes da cruz. Todavia, é uma indicação de que os crentes estão sujeitos ao controle demoníaco.
     Lucas 22:31-34. O apóstolo Pedro é um exemplo de crente que perdeu o controle temporariamente para o inimigo. Disse-lhe Jesus: "Simão, Simão, eis que Satanás vos reclamou para vos peneirar como trigo"(v. 31). Que direito teria Satanás de formular tal exigência? Aparentemente, Pedro havia fornecido ao diabo um ponto de apoio forte, mediante o orgulho, ao discutir com os demais discípulos sobre qual deles seria o maior(Lc 22:24). O líder orgulhoso faz com que suas ovelhas também sejam orgulhosas. São pessoas que não cumprimentam ninguém. Passam de nariz empinado e só falam com as pessoas conhecidas. Se os adultos fazem assim, imaginem as crianças e os adolescentes. Estes é que não falam com ninguém. É bastante encorajador saber, porém, que Jesus já havia orado pela recuperação total de Pedro, após esse incidente(v. 32). Seja humilde crente!
     Efésios 6:10-17. Esta passagem contém a bem conhecida exortação de Paulo aos crentes: "Revesti-vos de toda a armadura de Deus, para poderdes ficar firmes contra as ciladas do diabo"(v. 11). Qual é o propósito da armadura? Impedir que as setas do inimigo penetrem no corpo e firam o soldado. Se fosse impossível que as setas do diabo nos penetrassem, não haveria a mínima necessidade de revestirmo-nos da armadura. As instruções com respeito à armadura espiritual indicam que é possível o inimigo penetrar em nossas vidas e conseguir certo grau de controle.
     Tiago 3:14-16. Tiago dá a entender que se abrirmos espaço ao ciúme e à ambição egoísta, podemos ficar vulneráveis às tentativas de controle diabólico, pela sabedoria que não "desce lá do alto", que é "terrena, animal e demoníaca" (v. 15).
     I Timóteo 4:1-3. Assim escreveu Paulo: "Alguns apostataram da fé, por obedecerem a espíritos enganadores e a ensinos de demônios"(v.1). Se o inimigo conseguiu penetrar com mentiras em sua mente, ficará operando do lado de dentro, onde você é mais vulnerável a seu controle.
     I Pedro 5:6-9. Alerta-nos Pedro: "O diabo, vosso adversário, anda em derredor, como leão que ruge, procurando alguém para devorar"(v 8). A palavra "devorar" significa consumir ou engolir. É a mesma palavra empregada em I Co 15:54: "Tragada foi a morte pela vitória". Certamente a ideia de alguém ser engolido transmite a ideia de esse alguém ser controlado pelo engolidor. Se os crentes não estivessem vulneráveis a serem controlados pelo inimigo, Pedro não precisaria alertar-nos contra essa possibilidade.(Compilação do livro Quebrando Correntes, Neil T. Anderson)